quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O tempero da salada astral


   Da forma como me haviam vendido o peixe da Astrologia, eu tinha aprendido que os ingredientes da salada atômica a encobrir a Terra no exato instante de alguém vir ao mundo definiam a composição físico-química irrepetível culpada por todas nossas características pessoais. Um rol de opções infinito, como o número de combinações possíveis entre a pluralidade dos átomos espalhados pelo sistema solar.

   Esse manto etéreo, em perpétuo reordenamento, se petrificava – único -, em todos os seres nascidos em igual lugar e no mesmo fugaz milissegundo da expulsão uterina, como se endurecem as cascas dos ovos ao deixarem a cloaca da galinha.

   Feito. Estava ali um ser humano novo e diverso. A sorte estava lançada, per saecula, saeculorum. Não gosta de rabanete? Paciência. No planeta visível a meio-céu há muito rabanete e agora ele faz parte da salada da sua vida.

   Alguém ficava com sua casca de ovo petrificada sob a guarda de Áries, outro se plasmava em Sagitário ou em Câncer, e por aí vai. Os elementos que compunham a atmosfera (ou a salada!) nesta mínima fração de tempo do nascimento delineariam nossa permissividade ou autonomia, a gana de viver ou a paciência extrema, o gostar de cachorros ou a propensão a fissuras no dedo do pé.

   Um planeta era rico em carbono, outro em hidrogênio, um terceiro em ferro, qual beterrabas, algum mais gasoso, como o repolho, outro mais rochoso. O universo era uma grande quizumba de elementos em disputa por espaço e, também, pelo cerne da nossa natureza humana, nesta hipótese de astrologia inventada por mim.

   Se convenci alguém com meus delírios quântico-gastronômicos, que me desculpem. Na verdade, eu não entendia nada daquilo. Ainda não entendo. Mas me submeti. Tratei de me esforçar para navegar um tintim no assunto, porque Adriana era a morena mais apetecível do planeta.

   Julguei que atração tamanha merecia todos os esforços terrenos ou zodiacais para ser aplacada. Ansiava por me juntar ao seu corpo elástico, por aspirar sem freios o cheiro vívido da sua pele luminosa e descansar a mente de tantas horas de planejamento estratégico no vigor febril daqueles lábios. De todos os lábios, fique claro, pois já sabia, à época, da correspondência estreita entre o andar de cima e o andar de baixo. Isto, eu aprendi. Nenhum bruxo me contou.

   De início, me submeti, já disse. Como sempre faço. Depois, ela mesma subverteu as coisas, recomendando que eu tratasse de alimentar a minha individualidade, entre tantas outras tarefas e indicações aceitáveis, contraditórias ou impossíveis espargidas ao vento por Adriana naquela noite especial. Uma forma de me aprimorar para o futuro.

   - O homem é um ser em permanente transformação – disse, contrariando de pronto a minha imbecil teoria da casca do ovo e da corporificação pétrea da sopa de átomos.

   Adri, como passaria a chamá-la mais tarde, era uma sutil subversiva. Temi pela continuidade dos meus hábitos arraigados.

   Havíamos sentado na varanda, eu elegendo estratagemas de conquista, ela firme nos seus cálculos. Queria começar a dissecar logo a composição da minha salada. Sequer havia espiado de través para os milhares de luzinhas fulgurantes, dispostas na barreira de edifícios à vista, ou espalhadas em desordem pelo azul escuro do infinito, este último o universo de onde sacava, em terra, suas teorias espetaculosas. Nem olhou para a paisagem ou para a beleza acordada entre céu profundo, almofadas, música suave, dengos e desejos, a esperá-la ansiosos.

   Tive que aceitar com dignidade, ainda nos preâmbulos do encontro, a primeira incongruência da jovem astróloga. A vida é dura para os céticos como eu, mas o vivo interesse dela por meus dados compensava.

   - Sol em Virgem e ascendente em Escorpião – disse, fazendo ar de quem teme não estar preparada para o que poderia surgir na sequência.

   - É tão ruim assim? – perguntei.

   - Difícil. Coisa de pessoa muito exigente consigo mesma e com os outros. Um talento especial para detectar defeitos... – Fez uma careta. - ... nem que para isso precise ser um pouco desagradável.

   Admiti:

   - Minha mãe sempre me xingava por isso.

   Comecei a achar que o tal mapa astrológico podia estragar tudo entre nós. O tom profissional, agora meio condenatório, havia reduzido o alcance da aura de hormônios gravitando em revolução. Eu precisaria contornar o acidente malévolo de um nascimento em hora imprópria, talvez alegando influências de outras galáxias estranhas para amenizar esse determinismo tão estrambótico quanto aterrador.

   - Nem sempre sou bem compreendido – aleguei em minha defesa.

   Perguntou se eu era detetive ou policial. Neguei com veemência.

   - Tuas qualidades são de agente secreto: aptidão para trabalhos investigativos, muita dedicação e esmero no que faz. E sempre quer saber o lado oculto dos atos ou das intenções.

   - E tu, não?

   Adriana pousou em mim uns olhos velozes e espertos de águia faminta e, ao fazê-lo, sorriu com sarcasmo.
 
  - Não sou o alvo da consulta.

   Reuniu os cabelos e arranjou-os no topo da cabeça, fazendo sobressaírem no veludo da carne, às costas, as suas omoplatas energizadas, antes duas mornas esfirras triangulares perdidas entre seus cachos.

  Senti fome. E uma volúpia escorpioniana acender-se em minhas entranhas. Uma leve coceira na ampola de veneno. Tive vontade de morder seu ombro mais próximo.
  
   Ela seguia decifrando compenetrada o desenho circular, crivado de sinais complexos, traços e pontos. Em algum momento, antes da minha associação entre escápulas e esfirras, havia sugerido que a centralidade do meu ser estava no trato digestivo. Bingo, outra vez. Afirmou que eu era bastante detalhista, como todos os de Virgem, mas via também no meu mapa uma paixão além do normal para os virginianos típicos. Uma agressividade conquistadora meio incomum.

   O leão em mim – o bicho de verdade – quase rosnou em concordância. Meus níveis de testosterona começavam a atingir o topo e tornar mais ágil o raciocínio e forte a autoconfiança. Soube ali que tudo daria certo. Ela não me faria perder o foco entre planetas, estrelas e asteróides desconhecidos.

   - A Lua em Áries pode tornar as pessoas muito impulsivas. Isso pode te tornar um cara bem perigoso – disse, escandindo um “bem” de quase quinze letras.

   Achei melhor segurar o ímpeto do leão-macho recém-desperto e cantei para ele, em meu íntimo, uma canção de ninar desanimada.

   Ela não parava:

   - Além disso, Marte em Touro faz de ti um guerreiro calmo e persistente. Que não desiste até apossar-se do território.

   - Cruzes!

   Rimos. Ela bem mais. Diante da natureza do meu comentário, sentira-se autorizada a relaxar.

   Aquele cerimonial começava a nos deixar nervosos, era evidente. Melhor seria ter proposto um baseado na rede da varanda, um espumante ou um suave licor de Amarula ou Bailey’s.

   - É preciso cuidar com as paranoias – continuou, como se lesse meus pensamentos. – Tens um faro instintivo para perceber o mal, qualquer mal, escondido por trás das coisas.

   - Sei.

   - Mas...

   - Mas o quê?

   - ... podes vê-lo também onde ele não está.
   Franziu a testa. Deitou um olhar em mim que parecia um lamento condoído ou um pedido de compaixão.

   - Chato, né?

   Decepcionada. Ainda assim, reafirmei para mim mesmo que seguia tendo chances. Talvez a astróloga não estivesse despejando aquilo tudo para me fazer desistir – um Virgem meticuloso e Escorpião apaixonado como eu - do projeto de fazer eriçar-se com a ponta movediça da língua, um a um, os pelinhos alvos a cobrirem de névoa suas coxas, que repousavam na poltrona como duas focas meninas sonolentas, roliças e luzidias.

   Tentei amenizar o quadro terrível de policial austero e observador, persistente e meticuloso, impulsivo, mas paranóico, rabiscado em torno de mim. Aleguei ser inseguro, às vezes. Forçando simpatia, implorei para Adriana não se assustar comigo.

   Respondeu que Vênus e Mercúrio em Leão faziam de mim um ser de coragem. Engrandeciam, aliás, a coragem associada à habilidade investigativa e à busca do mal por trás de tudo, mas também mostravam um caráter honrado e digno. Talvez meio egocêntrico. Ainda assim, digno e honrado.

   Eu quis saber se isto me tornava menos perigoso, mas ela apenas riu outra vez.

   Adri ria fácil.

   Disse que insegurança fechava com Saturno em Sagitário. Era preciso reforçar-me como indivíduo.

   - Pode parecer maluco, mas pensa um pouquinho mais em ti e menos no futuro da humanidade.

   Desta vez, aleguei temer pela tibieza do mundo para conseguir sobreviver sem a proteção deste virginiano tão especial. Ela não perdeu a chance de me massacrar de novo:

   - Viu o egocentrismo? – disse, fazendo brilhar os olhos de ametista.

   - Teu signo é Peixes – arrisquei.

   Eu havia lido na internet uma lista das pedras características de cada signo e quis impressioná-la. Além disso, ela era escorregadia como um bagre.

   - Ô, detetive, vou lembrar de novo quem é a astróloga e quem é o consulente aqui.

   O tom de voz de Adri soou mais irônico desta vez. Talvez fosse libriana. As coisas estavam andando bem. As estratégias também passeiam pelo inusitado.

   - Sobre tu seres um cara perigoso, não acho. Buscar o sentido da vida, no teu caso, passa pela diplomacia e pelo diálogo. Júpiter em Libra gosta das coisas equilibradas.

   - Para resumir, sou um policial desarmado, criterioso, desconfiado e antifascista – eu disse.

   - Mais ou menos isso – concordou. – Sem esquecer do conquistador impetuoso e insistente.

   - Agora, chega - determinei. - Vou aproveitar a pausa e interromper a sessão. Se não, vais acabar me mandando embora.

   Achei apropriado retomar o leme. Papo-cabeça é bom até por ali. Chega uma hora em que a carnalidade precisa superar a mecânica celeste. Afinal, eu não acreditava um pingo naquilo.

   - Não viaja, não posso te mandar embora. A casa é tua – lembrou.

   De Sagitário, talvez.

   Acendi um baseado, dei uma longa tragada e tratei de passar adiante o cigarrinho feito à perfeição, com erva da boa e papel de arroz. Ela o apertou entre os lábios e deu uma pitada cuidadosa.

   - Bah!

   Seu rosto igualava-se em admiração ao “bah” que havia emitido.

   Fumamos, fumamos. Fumamos, num silêncio cômodo. A maconha uruguaia fazia jus ao comentário.

   Por fim, me pus de pé e entrei. Na sala de jantar, servi duas doses generosas de Bailey’s nos finos cálices de cristal da Baviera, única herança da minha avó. Delicados nos lábios como pétalas ao vento, dizia a velha.

   Arranjei os copinhos mortíferos sobre uma bandeja de prata recém-polida, comprada com oitavas intenções num antiquário da Fernando Machado.

   Não pensem ser eu um adepto de armadilhas torpes, como “boa noite, Cinderela”, ou coisas do gênero. Nada disso. Sou um estrategista que valoriza a sinceridade e as contendas limpas, um guerreiro resoluto, mas calmo. Como minha astróloga havia dito, sou pelo consenso, pelo diálogo, pela diplomacia. Prezo a igualdade de direitos e a prevalência das vontades mútuas. Em suma, um licor pode ser apenas um licor.

   Tampouco usei de minha estapafúrdia crueza de Escorpião (ou seria pelo sol em Virgem?) para cortar o discurso interplanetário com um convite para transar até ficarmos em carne-viva, coisa em que pensei várias vezes com a minha cauda pontuda e venenosa balançando inquieta durante a pretensa consulta. Embora acreditasse mais na descoberta de afinidades pela via da troca de ideias, de humores, dos sentidos e dos fluidos corporais, respeitei sua vocação para as teorias quânticas. Tinha lançado promessas para minha querida mãezinha, ainda no hospital, de fazer um esforço sobre-humano para evitar os sincericídios.

   Desejava proporcionar relaxamento, prazer e conforto. Soltar as tarraxas aguilhoadas na base da espinha. Fazê-la afundar-se em suspiros para esvaziar um pouquinho daquele ar austero e professoral. Queria apenas espontaneidade e entrega.

   De Gêmeos ou de Sagitário? Continuava sem saber, achei melhor procurar no Google antes de arriscar. Fosse Aquário, Touro, Câncer, Áries, sei lá, estava pronto para tudo.

   Encolhi um pouco a barriga, metamorfoseei minha cola mortal em cauda de pavão e voltei para a varanda com a bandejinha prateada, cuidando para não machucar o arco de penas na passagem da porta.

   - Vai um Bailey’s? – ofereci.

   Ela pegou o cálice, agradecida.

   Bebericamos o licor, em silêncio, olhos postos na paisagem monumental. Ouviam-se grilos, morcegos e sapos em meio à selva de cimento e asfalto e ao rumor longínquo dos automóveis. Um avião cruzou a linha do horizonte de fora a fora sublinhando de humanidade a calota estrelada. Luzes piscando na ponta das asas colocaram em sintonia, como um diapasão visual, dois tipos moldados em sopas cósmicas muito distintas. I wish you were here, cantou o moço do laptop, num lamento. Eu não precisava desejá-la à distância, Adriana já estava ali ao meu lado.

   Ansiedade em baixa, ela comentou que, mesmo sendo as cidades tão destruidoras e opressivas, a coleção de luzinhas piscando como vagalumes pelo mundaréu de prédios, embaixo de um céu limpo e imenso, irradiava só coisas boas. Muita beleza, harmonia e paz. Uma sensação momentânea de energias compartilhadas. Altruísmo. Compreensão. Tolerância.

   Olhos em risco, lábios ressecados, prolixidade eloquente construindo esperançosos castelos urbanos, ela viajava.

   Tomou mais uns golinhos de Bailey’s para umedecer a boca. Usando, então, de sílabas especialmente elásticas, disse, de golpe:

   - Cara, é muito bom estar aqui!

   Não enxerguei maldade por trás daquele arco retumbante de satisfação. Seu “muito bom” espichado havia sido sincero.

   Sorrimos um para o outro com simpatia. Os corpos magnetizados pela inflação termodinâmica de um momento sincrônico moveram-se como ímãs. Minha cauda de Escorpião, com sua ampola de veneno em riste, se desenrolou com suavidade. Não podia assustar a presa.

   Perigosa, urgente e definitiva, minha boca se uniu à dela.

   O gosto de Adriana não era de peixe. A vibração não era de virgem.



- Miguel da Costa Franco -

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