quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"Religare"



Mariela já havia experimentado todo o tipo de massagens: drenagem linfática, relaxante, estética e modeladora, shiatsu, ayurvédica e várias outras com nomes exóticos. Ora porque estava incomodada com dores, celulites ou saliências na barriga ou nas coxas, ora porque queria simplesmente deixar-se levar pelo torpor oferecido por mãos delicadas. Não gostava de massagens com velas ou pedras quentes, nem de gente pisando sobre seu corpo.

Sempre que ela marcava alguma sessão, Tomás fazia piadinhas sem graça, mostrava um ciuminho bobo, mais retórico do que verdadeiro. Estava sedimentado entre eles que as massagens não compunham o leque dos relacionamentos a que se pode qualificar como traição. Mas Tomás fazia questão de se mostrar alerta.

   Na opinião de Mariela, Haruki Takaro era o melhor massagista em atividade no círculo central da cidade. Tinha mãos firmes e fortes, mas um toque suave e respeitoso. Ao contrário de muitos, jamais se envolvia com clientes, ainda que soubesse levá-los a extravasamentos inimagináveis.

   Estava ali na sua saleta pela quinta vez, mas ele mantinha o mesmo distanciamento das sessões anteriores. Não era uma das tantas fraudes que se valiam do desconhecimento, da lascívia e da curiosidade alheias para ganhar a vida como massagistas, sem outras armas além das manipulações grosseiras de que era capaz qualquer garotão ou prostituta, anunciado num site de encontros.

   Para Takaro, suas intervenções eram rituais religiosos. Um religare. Um religare libertador. Havia estudado o tantra no Oriente. Sabia sobre as zonas erógenas e os canais energéticos da sexualidade mais do que o carteiro conhecia as pedras soltas das calçadas do bairro. Suas sessões buscavam, antes de tudo, a evolução interior. Orgasmos com frequência eram acidentes do processo, mas não um fim específico. Aos clientes que o procuravam apenas por um momento de prazer - a maioria eram mulheres -, sugeria em tom sereno que procurassem por acompanhantes.

   Sexualidade ainda era um tema espinhoso para muitos. Não raro seus pacientes se defrontavam com momentos de tensão ou bloqueios, que ele tratava de desanuviar com mãos sedosas, música relaxante e penumbra suave, abusando das velas aromáticas e dos óleos aquecidos.

   Mariela havia resistido ao toque macio de Takaro nas duas primeiras ocasiões. Ainda que ele lhe explicasse com voz mansa cada passo do processo, não se soltara de todo. Era a primeira tentativa de fazer massagem com um homem e algum traço de constrangimento ou insegurança era previsível. Ele tinha evitado transpor os limites que o corpo arisco da paciente lhe impusera. Havia sugerido automassagem em pontos específicos em que sentira resistências e recomendara alguns exercícios de respiração. Evitara tocar as mãos nas partes que os ocidentais costumam associar ao sexo.

   Na sessão seguinte, mais confiante nos bons propósitos do massagista, Mariela entregou-se a ele de forma mais relaxada, coisa que a fez voltar mais vezes e pré-agendar atendimentos de agosto até o final do ano.

   Takaro iniciou seu procedimento com uma profunda reverência àquela Mariela ainda reativa e insegura em sua nudez exposta. Em contraponto, ele vestia calça e bata brancas de algodão cru. Pediu-lhe que sentasse próxima dele e fechasse os olhos para um momento de reflexão e sintonia. Depois, propôs alguns movimentos respiratórios e de relaxamento. Ela sentiu seu coração galopante se apaziguar.

   Como da vez anterior, Takaro pediu a Mariela que deitasse de bruços sobre o tatame, cobriu-a com um lençol impregnado de um perfume floral e deu início à massagem pela sola do pé direito, detendo-se em cada ponto de tensão. Com o mesmo preciosismo, subiu perna acima, até o alto das coxas, soltando fibras e temores, nós e contraturas, primeiro de um lado, depois de outro. Massageadas as pernas, distensionou os glúteos com paciência e ritmo, como quem sova a massa de um pão. Suas mãos untadas de óleo morno deslizaram por costas e ombros, com a mesma persistência e dedicação, e depois desceram ondulantes pelos braços até a ponta dos dedos, como se fizesse escoar por eles todas as impurezas do caminho.

   Mariela estava semi-adormecida quando Takaro pediu-lhe, cochichando em seu ouvido, para virar-se de frente. O lençol restava abandonado ao lado do corpo e não lhe ocorreu se cobrir. O ambiente afetuoso e os toques precisos a haviam conduzido a um prazeroso abandono. Não pensava em nada externo. Tinha a mente concentrada em cada célula pressionada com suavidade pelo outro.

   Com a cabeça pousada entre as pernas de Takaro, teve massageado o seu couro cabeludo, os lóbulos das orelhas, a fronte, as maçãs do rosto e as laterais do pescoço. Seu corpo todo chispava. Takaro, entretanto – e ela estava bem próxima para avaliar -, não demonstrava qualquer sintoma de excitação. Depois, os movimentos do massagista voltaram-se outra vez para os membros inferiores de Mariela e reiniciou-se a lenta progressão ascendente que ela já experimentara de bruços.

   Quando os dedos cálidos de Takaro alcançaram-lhe os quadris, e depois a parte interna das coxas, que ele tratara de arquear levemente para melhor acessar as laterais da vulva, Mariela desejou que ele a penetrasse. Sentia que suas umidades a denunciavam. Mas Takaro manteve a sequência programada e passou a massagear a área entre o púbis e o umbigo, momento em que ela começou a sentir ondas elétricas a lhe subirem pelo tronco, como se o corpo todo entrasse num estado pré-orgásmico.

   As mãos de Haruki Takaro acompanharam tais ondas, navegando nelas, indo e vindo, indo e vindo, do ventre até os ombros. Cada toque sutil nos mamilos a fazia arder. Ela tinha o corpo todo em fogo e um primeiro orgasmo explosivo foi inevitável.

   Mariela tentou erguer-se, constrangida, mas Takaro a refreou com um leve toque no peito. Como se dissesse, sem usar palavras, para ela aproveitar bem aquele momento de profunda intensidade e leveza. Quando ela se mostrou mais tranquila, Takaro retornou aos movimentos ascendentes desde o ventre até os seios, tocando-os agora sem pudor nem receio, até fazer renascerem – ainda mais vigorosas - as ondulações elétricas que nasciam do púbis.

   Sob absoluto controle da situação, desceu as mãos até o entrepernas movediço de Mariela, agora oferecido e ansioso. Massageou as laterais da vulva, abrindo-a levemente. Fez desabrochar em plenitude, com movimentos circulares dos dedos polegares, o clitóris intumescido e, acompanhando as contrações involuntárias que a assacavam, deixou escorregar para dentro dela o dedo médio, como imãs que se encontram para neutralizar descargas, deixando-a valer-se dessa penetração tão desejada, ao seu ritmo, para o máximo prazer, repetidas vezes.

   Mariela jamais havia experimentado aquilo.

   Depois, Takaro espraiou as mãos sobre a região do umbigo de Mariela e sobre o peito, até que ela regularizasse sua respiração ofegante. Ajudou-a a relaxar o corpo no tatame, cobriu-a com o lençol perfumado, apagou algumas velas e afastou-se para dar-lhe privacidade. Sentou-se sobre os tornozelos na posição de lótus, fechou os olhos e dedicou-se a apaziguar as próprias energias.

   Despertou-a com um afago no rosto alguns minutos depois e inclinou-se respeitoso para ela, com as palmas das mãos justapostas.

Das outras vezes, o ritual se repetiu quase sem retoques. Numa delas, Mariela despejou lágrimas abundantes, saídas sabe-se lá de onde. Naquela ocasião, Takaro encerrou a sessão com um abraço amoroso, que trouxe aos dois uma profunda harmonia. Tinha nele não só um mestre, mas já o percebia como um grande amigo. Um ser humano para fazê-la acreditar outra vez na humanidade.

   Quase não conversavam. Assim que se vestia, Mariela pagava pelos serviços e ganhava a rua, leve, leve. Da primeira vez, não gostou de olhar para Tomás na foto que trazia na carteira e tratou de mudá-la de lugar. Que nada estragasse seu prazer! Nada de culpas!

Achava que Tomás não compreenderia aquela relação saudável, sobretudo se soubesse que a massagista das terças-feiras era, na realidade, um homem. Sabia, também, estar batendo de frente com o pacto firmado anos antes, quando haviam prometido exclusividade de um para com o outro. Por precaução, resolveu rebatizar o contato de Haruki Takaro em seu celular para “Mari Massagens”.

   Defendia-se de sua pequena transgressão, dizendo para si mesma que aqueles maravilhosos exercícios de autoconhecimento permitiam-lhe fazer desabrochar a sua sexualidade mais profunda, e disso, o maior beneficiário seria o próprio Tomás. Takaro era apenas um instrumento. Ainda que, no tocante ao desejo e à canalização das suas energias eróticas, cada dia Mariela estivesse mais para Takaro e menos para Tomás. Não havia comparação.

   Cada sessão de massagem tinha a duração de um longa metragem, como o filme francês com Isabelle Adjani que Tomás a convidara para assistir. Depois, inebriado por estímulos externos, Tomás quereria comê-la de seu jeito apressado, sem saber que para ela o sexo ganhara uma dimensão mágica e sensorial, difícil de captar para um engenheiro mecânico, mais preocupado com o preciso enlace de pinos e engrenagens, os movimentos ritmados e persistentes e com a fadiga dos materiais.

   Pobre Tomás! Que sabia ele de chakras, fluxos energéticos e estímulos sensoriais? Perto da maestria de Takaro, Tomás era apenas um iletrado aprendiz. Era delicado e carinhoso, mas jamais dedicaria noventa minutos do seu tempo para incendiá-la de desejo. Cego ante as sensíveis transformações da companheira, Tomás voltava a incorporar a figura menor do selvagem a ser catequisado.

   Mariela via-se agora como uma oferenda dos deuses e para os deuses. Seu corpo era uma catedral, onde é preciso aceder com humildade, sutileza e veneração.

   Se o critério fosse apenas o prazer sexual e tivesse de optar entre um e outro, sem dúvidas, escolheria Takaro. Mas ele era apenas um massagista, não se propunha a ser também marido, dividir despesas, buscar as crianças na escola, fazer rancho no supermercado e cozinhar para a família, procurar remédios na farmácia, visitar a sogra com Alzheimer, levar o carro na oficina. Ou apoiá-la, nas alegrias e nas tristezas.

   Imaginou-se companheira do massagista, a catalogar orgasmos alheios em cada tentativa de puxar assunto.

   - Como foi hoje, querido?

   Silencioso como era, ele pouco falaria da ampliação cotidiana e inexorável de sua orgasmoteca e ela se encheria de minhocas. Morreria de ciúmes daquele trabalho tão eletrizante.

   Amava o marido, eram bons companheiros. Valia à pena investir na parceria.

   Vestindo apenas uma bata branca de algodão cru, acendeu uma vela perfumada em cada mesinha de cabeceira, untou as mãos com óleo de amêndoas e postou-se ao fim da cama, sentada sobre os tornozelos. À espera de Tomás, que escovava os dentes no banheiro ao lado, procurou regularizar a respiração apressada.

   Quando ele retornou ao quarto, sugeriu com voz macia que Tomás deitasse de bruços. Iniciou a sua massagem libertadora pelo calcanhar direito.


                                          - Miguel da Costa Franco -

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