sexta-feira, 20 de julho de 2018

Parafuso frouxo



   As cheias nos afluentes haviam feito do Guaíba um mar agitado e traiçoeiro para quem tentava atravessá-lo num pequeno barco à vela, com o leme mal fixado por um único parafuso. Se perdesse o último pino e ficasse à deriva, amanheceria sabe lá Deus onde. Com um pouco de sorte, num fundão da Barra do Ribeiro ou, talvez, no meio da Lagoa dos Patos.

Em águas açoitadas por ventos cambiantes, o veleiro frágil não havia suportado a pressão do canal, que o homem agora teria de transpor outra vez para alcançar refúgio na náutica onde a mulher o esperava.

Pobre dela! Imaginaria que a perda dos parafusos era culpa sua, e não das forças da natureza, já que se propusera a preparar sozinha o barco: acomodar a vela e distribuir os cordames; fixar no casco mastro, leme e quilha; armar a retranca; garantir as amarrações das escotas e adriças e os encaixes adequados. Pela primeira vez, manifestou alegria e vontade de aprender, o que foi surpreendente, pois ela vivia às turras com o esporte predileto dele. Conviviam num equilíbrio precário. Como a pá do leme, também o seu casamento desgastado parecia estar preso por um só parafuso torto.

Ele havia tomado aquela atitude da mulher como um reposicionamento, uma tentativa de conciliação. Nem fez uma revisão mais acurada das amarras para não demonstrar desconfiança. Afinal, tudo parecia a jeito.

Mas preocupar-se com ela, agora, era o de menos. Ondas gigantes inesperadas no rio-lago, o leme estropiado e a noite que caíra de súbito: era tudo em que ele pensava. O céu tinha nuvens carregadas, prenúncio de tempestade. O cinzento das águas revoltas e a distância das luzes da cidade forjavam um breu assustador. O vento zumbizava oscilante de norte a nordeste. Às vezes, brotavam lufadas de sul ou sudeste fedendo a repolho cozido das chaminés da fábrica de celulose, em rajadas difíceis de administrar com o barco naquele estado.

O homem mantinha-se atento para não esbarrar em galhos e troncos que desciam livres na corrente.

Uma mancha escura a bombordo, entre o veleiro e a Usina do Gasômetro, marcava a posição da Ilha do Presídio, que tantas figuras ilustres albergara nos tempos da ditadura. Ultrapassada a cadeia, sua única referência para navegar seria o holofote que Ricardo, o administrador da casa de barcos, plantara na beira da praia para orientar os retardatários. A noite havia caído velozmente e tinha suprimido outras indicações visuais. A margem do rio era apenas uma linha enegrecida de vegetação, pontuada de luzinhas fracas, dispersas no mato.

Enquanto o navegante cruzava o canal, temendo a trombada de alguma embarcação de maior porte, o braço que sustentava o leme formigava e prenunciava cãibras. Mas era preciso dar sustentação à presilha meio solta.

Demoraria mais de hora até conseguir aportar.

O desejo maior do homem é que Ricardo viesse buscá-lo no seu “gomão” a motor, mas talvez ele já não estivesse em serviço. O normal era fazer um recorrido ao fim da tarde para rebocar os clientes retidos pela calmaria ou menos acostumados com as artes da vela. Não era o caso. Hoje havia bastante vento e ele - dessa vez surpreendido em meio ao rio pelo dano no engate do leme - já era reconhecido como um velejador cancheiro.

Não fosse a roupa molhada, o frio a lhe gelar a alma e a incômoda posição – braço direito mergulhado na água sobraçando a peça danificada -, o resto estava a contento. Ele resistia à correnteza e às altas marolas, e conseguia manter o rumo aproximado de onde se fixava o luzeiro da náutica. Atravessava. Vencia o canal. Talvez precisasse apenas uma ou duas manobras de ajuste, que tentaria mais perto da margem, para o caso de perder o último parafuso. Nadar mal era o seu fraco, ele sabia. A mulher não se cansava de lembrar.

Decerto, não havia ocorrido a ela reapertar a conexão do leme.

Sentado à proa, o fantasma do tio-avô - morto ao tentar cruzar a nado o Camaquã -, pousava nele um olhar de desdém. Nenhum parente ousara desafiar qualquer curso d’água depois do acontecido. Eram já duas gerações de homens e mulheres acorrentados a terra, espantando com negaceadas, rezas e “tesconjuros” o instinto aventureiro, só por receio de repetir semelhante tragédia. Apenas o homem agora acossado pelo rio, primeiro da família a tornar-se velejador, não havia se submetido ao medo.

Parecia que o espectro do tio-avô sentado à proa viera para confortá-lo, para estar junto naquele momento difícil. Cantarolava uma velha canção do seu tempo:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer?

Quando o veleiro conseguiu esconder-se das ondas atrás da Ilha do Presídio, o homem desligou-se da canção. O barco fazia água e faltavam-lhe braços para esvaziá-lo. Calçou o cabo da vela no mordedor, segurou com as pernas a cana do leme e usou a mão livre para devolver ao rio o que lhe pertencia por direito. Aos poucos, o veleirinho ganhou leveza e reagiu, cortando com mais gana as vagas sucessivas.

O tio-avô mostrou contrariedade, como se quisesse companhia no nicho em que habitam os afogados.

- Não vai me levar! - bradou o timoneiro, firmando os olhos no fantasma cantador que somente nesta hora triste viera dar o ar da graça.

O outro fez um gesto vago, confiante. Seguiu cantando, sarcástico:

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.

Desafiado pela palavra fatídica, o homem resolveu cambar a estibordo para ajeitar o curso. Navegou a popa, instável e veloz, por uns trezentos metros – quem saberia? - e repetiu a manobra, desta vez para o outro lado, para buscar o rumo preciso do holofote. Na segunda virada, o último parafuso desprendeu-se e ele ficou com o leme solto em suas mãos. Estava à deriva.

Diante das gargalhadas do fantasma, praguejou alto. Morrer não estava no programa.

Atirou para o meio da embarcação a peça inútil, soltou a vela e moveu-se para diante, arrastando-se. Os braços cansados teriam de remar. Desalojou o fantasma inconveniente e deitou-se na quina da proa, trançando as pernas no mastro, de modo a alcançar as águas escuras do rio sem risco de queda.

Com muito esforço, venceu a Ponta dos Cachimbos e chegou numa área mais protegida do vento predominante. Descansou um pouco, pois já estava perto da Pedra Redonda. Enrolou a vela no mastro para não se rasgar e percorreu as últimas centenas de metros com remadas menos vigorosas.

Quando aportou à náutica, o tio-avô havia sumido. Ricardo o esperava aflito à beira d’água, ao contrário da mulher, que se distraía jogando conversa fora com as amigas.

- Por que não me buscou? - protestou o quase-náufrago.

Ricardo ficou constrangido, baixou a cabeça.

O homem esgotado e exausto voltou à carga, exigiu mais atenção, lembrou ao administrador que essa era também a sua função por ali: cuidar da segurança dos clientes. Alteou a voz, tomou um tom mais rude. Tanto fez, exaltado, que Ricardo acabou vencendo a subserviência.

- Eu cheguei a preparar o gomão - ele disse, mostrando o bote de borracha descansando junto à rampa. - Mas sua mulher insistiu que eu não fosse, não precisava, disse que você adorava aventuras.

O homem silenciou. Que mulherzinha!

Disfarçou o incômodo correndo as vistas pelo rio encrespado e pela ilha maldita. Firmou o olhar lacrimoso nas luzes da processadora de celulose, que também continuava fazendo sujeira, sem ninguém protestar.

Safara-se de boa. Agora era seguir em frente.

Pegou nas mãos o leme roto e avaliou o estrago.

- Vou precisar de um engate novo e de parafusos - disse para o guarda-barcos.

Depois, desviou-se dele e arrastou suas dores ladeira acima. O resto teria de resolver sozinho.


                                                  - Miguel da Costa Franco –


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