quinta-feira, 11 de março de 2021

Novo romance em pré-lançamento: "A filha do Dilúvio"



   De um lado, uma herança inesperada e a ascensão social; de outro, o cruento desenrolar da vida em meio à miséria e à falta de opções. Duas realidades paralelas, que se sobrepõem de forma explosiva, reorganizando desejos, afetos, traumas e dilemas pessoais. Para alguns, chorar é da vida. Para outros, o conforto está dado. Gerar descendência passa a ser escolha e conflito. Um país em construção, compartimentado e desigual. Entre extremos, a humanidade insiste em pedir passagem.


   A obra, com previsão de lançamento para abril/2021, está em pré-venda no site da Ed. Libretos abaixo.

 https://www.libretos.com.br/editora-libretos-loja/destaques/lancamentos/a-filha-do-diluvio.html.

   Reservas também podem ser feitas diretamente, através dos contatos referidos na aba "O Autor".

segunda-feira, 8 de março de 2021

Luto pelo Brasil



Li o demolidor artigo “A COVID está sob o controle de Bolsonaro”, de Eliane Brum, no El País de 03.03.2021, e seu conteúdo ficou martelando na minha cabeça. Sem dúvida, há um projeto eugenista em curso. Ao deixar livre o caminho para o vírus e suas sequelas, nosso presidente advoga que sobrevivam apenas os mais fortes. Eliane cita a pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da Conectas Direitos Humanos, que "(...) provou que o governo federal executou um plano de disseminação do vírus. A análise de 3.049 normas federais mostrou que Bolsonaro e seus ministros tinham - e ainda têm - o objetivo de infectar o maior número de pessoas, o mais rapidamente possível, para a retomada total das atividades econômicas (...)".

Idosos, desvalidos, portadores de comorbidades comprometedoras, sem-teto, indígenas, quilombolas, desempregados, drogadictos e outras comunidades à margem, todos nós (sou um sexagenário aposentado) somos uma parcela tida como improdutiva e descartável da amada pátria dos sonhos do bolsonarismo – como já assim foram vistos grupamentos semelhantes na Alemanha de Hitler. Oneramos o Sistema Único de Saúde e a Previdência, demandamos gastos crescentes do orçamento público com segurança, moradia, água e saneamento, energia, transporte e educação. Ocupamos como trambolhos inúteis áreas de interesse da construção civil, da indústria, da mineração e do agronegócio. E a economia, com níveis altíssimos de desemprego, já não necessita de nós para nada.

Este raciocínio eugenista frente à pandemia cavou um fosso entre “eles” e “nós”. Se antes o individualismo, a misoginia, o antipetismo, o racismo e a homofobia – todos reunidos sob a capa de um intraduzível e abrangente “anticomunismo”, que incluiria até Bill Gates e George Soros – já eram motivo suficiente para truncar o diálogo entre os opostos, a inação do governo diante da maior crise sanitária mundial elevou o afastamento a níveis inimagináveis.

Verdade? Nem tanto. A questão importante que Eliane Brum coloca para nós todos é o quanto de "eles" há em "nós". Como já o fez Hannah Arendt, em tempos passados.

Depois de ler seu artigo, dormi e acordei pensando nisso: o quanto de "eles" há em "nós".

Ficar quarentenado em casa – e já estou nisso há quase 13 meses – é atitude que atende a uma necessidade do coletivo, sem dúvida. Todos os epidemiologistas e sanitaristas o recomendam. Tenho no meu círculo de relações uma maioria significativa de pessoas preocupadas com o bem comum que têm adotado atitude semelhante. Mas também me dá um desconforto saber que muita gente boa, por não poder fazer o mesmo, vai se contaminar pelo coronavírus, sofrer em hospitais e postos de saúde mal equipados, talvez morrer. De certa forma, minha situação “confortável”, por si, acaba me tornando, a contragosto e sem culpa, um “deles”. Por questão de extrato social, apesar de vítima, sou também um beneficiário indireto deste processo eugenista dantesco. Tenho mais chances de sobreviver.

A estas alturas, estamos em 265.500 vidas perdidas e os números só crescem. Foram, em média, mais de 4 boeings lotados caindo a cada dia durante todo o período de um ano. Neste ritmo, poderemos atingir um milhão de vítimas até o final de 2021. Serão quatro atentados equivalentes em vítimas, cada um deles, à destruição de Hiroshima e Nagasaki pelas bombas atômicas na Segunda Guerra.

E nada parece comover nossos dirigentes. Nossas Instituições se mostram frágeis e desinteressadas em enfrentar o problema, ainda que os dados científicos sejam assustadores e inquestionáveis, e as tais pedaladas fiscais que derrubaram Dilma Roussef sejam absolutamente pó se comparadas aos atos do governo bolsonarista, em prol da abertura de caminhos para a contaminação pelo vírus. O presidente comete crimes de responsabilidade diários. Em geral, mais de um por dia. Ainda assim, nada sucede. Estamos desprotegidos e soltos ao deus dará. O que mais se ouve por aqui é o grito aflito e estridente das ambulâncias.

Nós, como sociedade civil, precisamos fazer alguma coisa antes de perdermos mais pessoas. Mas temos, antes de tudo, de vencer o negacionismo e o exército de robôs humanos e inumanos que cotidianamente defendem o oposto com ardor inimaginável.

Andei pensando com os meus botões...

O que mais e mais nos unirá – falo dos humanos – de agora em diante nesta sociedade destruída será a dor das perdas. Em breve, todos nós teremos um amigo, um parente, um colega de trabalho, ou vários por quem chorar. De minha parte, já os tenho. Salve, Luiz Inácio, meu primo. Salve Pinheirão, meu professor. Viva Aldir Blanc, artista-maior, que inundou minha juventude com seu talento. E tantos outros que já perdi.

Quando chegarmos a um milhão de vítimas, cada pequena célula familiar com duas dezenas de pessoas terá tido contato direto com a doença e o medo, e talvez contabilize alguma perda ou sequela. Mas sequer o luto pode ser administrado como se deveria. Sequer as devidas homenagens a quem parte são possíveis neste momento. Como lembrou Mário Corso, em “Empatia pela morte” que li no Facebook, “(...) antropólogos e arqueólogos convergem que os primeiros monumentos foram os fúnebres. E o que primeiro nos tornou humanos foi a constatação da finitude e expressar a dor por quem parte com uma homenagem pública (...)”. Não poder nos despedir nos desumaniza.

Lá fora, as animosidades só crescem. A esquerda está paralisada. Seu discurso em defesa da coletividade bate em ouvidos moucos. Ou poluídos por um “anticomunismo” genérico e generalizante. A direita, preocupada apenas com a economia e com o patrimônio, segue fazendo carreatas e manifestações contra medidas restritivas, pela abertura de tudo, e venceu as últimas eleições com este discurso. Há um exército de aturdidos, perplexos, ingênuos e arrependidos, entre um campo e outro, sem saber a quem aderir.

Acho que nesta hora dramática a luta política passa a ser a luta pela vida. Temos que abandonar o racionalismo das ideias - que bate à porta de cérebros amortecidos e não consegue entrar - e apelar para a emoção.

Alguns dirão, cheios de razão, como Mário Corso em “Empatia pela morte”, que “(...) psicopatas não se comovem e nem choram a morte alheia. Esse software básico de humanidade inexiste neles. Por isso nem nos entendem. Estão no raso da vida não transcendente, do homem mercadoria ou consumidor. Não compreendem o dom da vida como um presente único, de uma trajetória singular e irrepetível.”

Outros dirão que estamos sendo radicais. A estes, respondo: radical é a desumanidade em Bolsonaro.

Precisamos fazer alguma coisa contra este morticínio programado. Estamos banalizando a morte e o mal, mais uma vez. Quero crer que poucos de nós sejam psicopatas. Estamos diante do desafio de mobilizar a sociedade civil para se defender do desespero, da desesperança, do fim doloroso e do caos, num tempo em que as aglomerações são inoportunas e mortais. Talvez devêssemos, também, partir para carreatas, que garantem alguma proteção contra os contágios. Mas carreatas diferentes, não de confronto, mas de cooptação. Carreatas de luto. Com bandeiras pretas. Absolutamente silenciosas. Com o nome das pessoas queridas que já se foram estampadas nos para-brisas. No dizer de Mário Corso, “(...) quando se chora por um que se foi, se chora por todos que se foram, e por nossa partida um dia. Retiramos a morte da banalidade.(...)

Nas circunstâncias atuais, só a dor e luto podem unir aqueles de nós – de esquerda, centro ou direita – que mantêm traços de humanidade. Juntemo-nos pela emoção, já que a razão só nos afasta. Se o que temos são tristezas, nossas lágrimas sinceras hão de ser revolucionárias. Que cada nova perda receba de nós, sobreviventes, a gentileza de um digno cortejo fúnebre de despedida, que seja também um ato político, para que nossa dor seja ouvida, vista, sentida, acompanhada pela sociedade. Vistamo-nos de preto, todos os dias ou sempre que possível. Estampemos panos pretos nas janelas e nos carros, em outdoors e faixas. Inundemos as ruas de preto. O Brasil está de luto. Estamos todos de luto. Façamos deste luto, coletivamente, uma luta.