quinta-feira, 11 de junho de 2020

Beijo



Reconhecemo-nos:
nossos olhos,
doces magnetos.

Batedores ousados, teus dedos
Escalaram as sendas do meu peito,
invadiram a selva rasgada dos meus cabelos.

Capitã dos nossos desejos, salpicaste
luminescências sobre um corpo
sensível ao canto das sereias.

Estranhamente, o teu cheiro
não era de mar; tinha, sim,
um quê de jasmim-estrela.

Me entontecias.
Me afogavas.
Me puseste mareado.

Feixe de labaredas, a carne rubra,
arrulhaste impossibilidades
e promessas afobadas.

A dor difusa da incompletude
Invadiu-me o corpo,
lenta, vã, inexorável.

Tua boca era um vulcão aceso.
Minhas ânsias por ti,
me deixavam sem ar.

Trocamos um único beijo
antes de partires, longo,
ardoroso, promissor.

Infecto e mortal,
como vim a saber
depois.


   - Miguel da Costa Franco -


poema publicado no Não 84 (Não da Quarentena), de novembro de 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Respira, Abelardo



   Foi quando eu estava na escola primária que tive as noções mais concretas do que seria uma escala de avaliação. Com certeza, os mesmos critérios já circundavam o meu pobre cérebro de forma mais vaga, ainda no ambiente familiar, aplicados a cada situação do dia a dia. Mas, no mundo escolar, as tábuas de aferição do aprendizado ganharam contornos matemáticos bem precisos. Era uma medição simples, como se usava para peso e altura, tamanho do sapato e das roupas ou circunferência da cabeça para bem acomodar o boné.
     
  Na bagagem do conhecimento, levar nota dois, três ou quatro podia ser caso de internação. Representaria, ao menos, o corte do cineminha dominical, das brincadeiras no campinho ou das visitas aos amigos. As notas pouco acima de seis ainda suscitavam olhares de comiseração. O bom ânimo renascia quando despontavam os setes ou os oitos no boletim, mas apenas os noves mereciam aplausos, em especial quando sucedidos de algum número acima de cinco após a vírgula. Em verdade, o esperado, inequivocamente, era o dez. E fim.
   
   No correr da vida, abrandar esta escala de valores para aferir aprendizados tornou-se fundamental. Consegui ser razoavelmente feliz, com triunfos e tombos passando a ser medidos por regras menos rigorosas. Afinal, é razoável que o arroz fique meio empapado de vez em quando, que o efeito do desodorante vença pela metade da tarde, nos dias mais quentes, ou algum resquício indesejado de refeições resista no interior do vaso sanitário após o acionamento da descarga, se a campainha da porta te atropelou justo no início do processo. É normal. A vida é pródiga em apresentar esses   percalços. Se não tratamos de amenizar as expectativas, o viver torna-se infernal. Acho que é meio óbvio que ninguém deixa um capitão (de onde terá saído esta metáfora?) boiando na privada sem um bom motivo exterior: a falta d’água, ou uma pane no mecanismo, ou um atropelo qualquer, como a pressa em atender a campainha. Aprendi que o bom senso subverte a fixação de dar notas para tudo.
   
   Mas aí veio a Judite, e a Judite nunca perdoa:
   
   - Abelardo, não deu descarga de novo!
   
   - Eu dei, Judite.
   
   Sei que seria injusto atribuir também ao coronavírus, que nos forçou à prisão domiciliar, a responsabilidade por esta impaciência. Olhando bem, a coisa já devia ser um pouco assim antes da pandemia. Ou muito assim. (Qual a escala que devo usar aqui, afinal? Estou perdido.) O fato é que o maldito vírus deixou-nos mais meticulosos. Por que ela não aperta outra vez o botão da descarga, e pronto, sem vir com admoestações redundantes para cima de um sexagenário assustado do grupo de risco?
   
   A maravilha das maravilhas foi a descoberta da máquina de lavar. Primeiro, veio a de roupas, item fundamental, junto com o fogão e a geladeira, do primeiro lote de eletrodomésticos adquiridos pela classe média. Depois, a lava-pratos, a sacrossanta máquina de lavar a nossa inesgotável louça suja.
   
   Comprei a minha primeira Enxuta lá pelos anos 80. Essa era a marca do artefato salvador. E várias outras se sucederam: Cônsul, Brastemp, Eletrolux, Panasonic, o que seja. Não me ligo muito nesse negócio de branding. Posso até estar errando a marca de alguma. Não é isso o que importa. Para mim, lava-louça é lava-louça, e ponto. Sou meio comunista, como se diria hoje em dia neste Brasil tão doido, onde poucos sabem mesmo de que se trata o comunismo. Sim, comunista, segundo a visão terraplanista em voga. Odeio ter tantas opções quase iguais na hora de comprar um aparelho qualquer. Já estou de saco cheio deste capitalismo imbecil e suicida, que leva flores cultivadas na Holanda, numa sopa química e poluente, para serem vendidas do outro lado do mundo, na Tailândia ou Bangladesh. E faz transitar pela distante China, em algum ponto do processo, quase todo bem de natureza industrial.
   
   Mas isto é outra história. O importante aqui é que administro este artefato lavador benfazejo há quase quarenta anos e isto fez de mim uma pessoa melhor, infinitamente mais feliz. Um cidadão nota sete ou oito. Vá lá, nota oito, não vamos exagerar na modéstia. É que máquinas de lavar-louça não são perfeitas. Não são. Nã-nã-nã-ni-não. Sempre resta uma gosminha aqui ou ali, um resíduo de borra de café numa xícara mais funda, uma borda mal lavada numa travessa, um prato que é reprovado no ENEM domiciliar.
   
   Há formas sabidas e ressabidas de driblar estes desconfortos: uma pré-limpeza dos restos mais grosseiros e uma esfregadinha com esponja aqui ou ali são sempre bem-vindas. Com quatro décadas de estrada – ou lavação de louça, no caso – isto é conhecimento já sedimentado. Absorvido. Incorporado. Aprendi também a ser mais tolerante. Na pior das hipóteses, a sujinha vai para a máquina de novo. Volta ao início do processo. Sem chilique.        
   
   Além da fiscalização permanente da Judite, o que mudou com a chegada da pandemia, foi a frequência de uso da lavadora. Ao menos duas vezes por dia, vejo-me a recheá-la com copos e pratos, talheres e potes, panelas pequenas e frigideiras, conchas, escumadeiras, vasilhas, descascadores e o escambau. Ateu convicto, eu tenho rezado todo o santo dia para que ela resista e não quebre em meio a estes tempos de isolamento social tão necessário.
   
   Mas... E a Judite?
   
   A Judite, coitada, ainda é uma escrava da nota dez.
  
   - Olha, Abelardo, nestes potinhos tem que passar uma esponja antes...
   
   - Quando eu acho que precisa, eu passo, Judite.
   
   - Se não, a máquina não limpa.
   
   - Nesse aí, eu passei.
   
   - Fica cheio de gruminhos...
   
   - Eu passei, Judite. Uso estas máquinas há quarenta anos... Sei como se faz.
  
   Poupando-se de apenas devolver o item mal lavado à pilha de louça suja, ela volta à carga, sempre professoral:
   
   - Se passou, passou pouco, Abelardo.
   
   Respira, cidadão nota oito. Respira. Deve sofrer muito, a pobre Judite.


                             - Miguel da Costa Franco -