quinta-feira, 12 de julho de 2018

Escurecer no pampa

             
   O homem pisou algo brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro ataque. Deu uns passos adiante, mas outra vez sentiu o pé apoiar-se em matéria flácida, indevida. Cruzeiras andam sempre aos pares, dizia o velho Tibúrcio, para quem não havia segredos no universo. Teriam as jararacas o mesmo hábito?

   Duas picadas em sequência, uma em cada tornozelo, o fizeram cair ao solo, de onde pôde acompanhar, atônito, a lenta retirada de suas agressoras pastiçal adentro. Eram das grandes.

   Mesmo que o sol já se encaminhasse para o poente, o calor era ainda sufocante. Tinha a camisa empapada de suor. Dores agudas irradiavam-se pernas acima. Percebeu marcas de duas mordidas na perna esquerda, quatro pontinhos de onde escorria sangue em abundância, e áreas amplas de pele enegrecida. Na direita, o golpe havia sido por trás, as marcas não estavam visíveis.

   Sentia-se paralisado, derrubado também pelo medo. Sabia que precisava voltar rápido à sede da fazenda e, dali, correr até a cidade, rezando para encontrar o soro adequado no modesto posto de saúde local. Caso contrário...

   Deitado, não conseguia enxergar o cavalo. Apenas o céu imenso e azul sobre si. Tentou erguer-se, mas suas pernas em fogo não queriam atender ao seu comando.

   - Alguém acuda! – gritou, sem esperanças.

   Nenhum peão viera por ali. Ele é que tinha embestado de ver de perto a plantação e inventara de cortar caminho pelo pedregal. Logo hoje, que havia deixado de lado as botas por causa do calor. Até haviam mangado dele, pois a lavoura era para os lados da vila:

   - Isso é desculpa pra ver a Chininha!

   Mas ele não era homem de frequentar puteiros.

   Aos poucos, o terror e a paralisia foram cedendo à urgência de sobreviver. No entanto, as pernas fraquejavam, não conseguia se firmar. Movendo os braços, começou a arrastar-se de volta à trilha, de onde – avaliava agora – nunca devia ter saído. Não sem proteção.

   O passaredo começava a recolher-se, procurando abrigo para a noite próxima. Mugidos distantes rompiam de quando em vez o silêncio das quebradas. Quero-queros defendiam seus ninhos com gritos de alerta agudos e ritmados.

   O homem, que se arrastava pelo chão duro e empedrado como se nadasse de costas, amassava com o torso rosetas, pedriscos, insetos, gravetos. Sentia na pele o riscar de pequenas lâminas impiedosas. Arranhões, picadas e arrepios marcavam-lhe as espaldas.

   A perna direita, agora, também começava a mudar de cor, tomando um tom cinzento ou azulado. Ou seria efeito do cair da tarde?

   O cavalo estava longe, sob as árvores do capão, e o postinho de saúde já devia estar fechando. Neste ritmo, no mínimo perderia a perna esquerda, já arroxeada e coberta de bolhas. Se não conseguisse montar no baio, arriscava morrer ali mesmo.

   Imaginou que não teria um velório de aturdidas tristezas. Talvez sua morte até contribuísse para  apaziguar os ânimos da família, dando razão, por caminho inesperado, a uma das partes em confronto. A cunhada diria que havia sido um castigo de Deus e o irmão insinuaria, com maldade, que as cobras teriam morrido primeiro. Se a amiga Chininha despejasse alguma lágrima no enterro, suspeitas injustas se confirmariam para todo o sempre.

   À contraluz, a colina salpicada de pedras - cobertas pelo verde prateado dos liquens -, com nesgas de terra escura brotando dentre elas, parecia também o dorso de uma enorme jararacuçu. Aquela coxilha devia ser a mãe de todas as cobras.

   Sentia fisgadas da cintura para cima, calafrios. Ansiava por um gole d’água. Ouviu o relincho incomodado do baio e teve medo que o animal atado à cerca também estivesse ameaçado por serpentes. Reorientou o lento arrastar-se para os lados de onde ouvira a montaria. No céu, que já se apresentava mais anil, as primeiras estrelas tinham um brilho embaçado. Como se havia formado aquele nevoeiro num dia tão claro?

   Enxergou junto ao alambrado o vulto do cavalo, inquieto diante de sua aproximação de modo tão fora do comum. Falou com ele para acalmá-lo:

   - Eia, baio, eia.

   Tinha os braços cansados e as pernas anestesiadas. Não conseguiria montar. Ouviu mais forte o patear do garanhão. Assustado, ele se movia lateralmente de forma perigosa para quem pretendia abordá-lo arrastando-se.

   - Oooô, oô!

   Pensou que soltá-lo poderia ser o seu escape. O animal tomaria o rumo das casas e, chegando sem cavaleiro, tratariam de sair a procurá-lo. Movimentou-se em curva para contorná-lo e poder afrouxar as rédeas.

   Com esforço, pois sentia fortes dores no peito, sob as costelas, conseguiu desatar o nó que prendia o cavalo no palanque da cerca, a meia altura. Ainda teve forças para gritar com ele:

   - Xô, baio, xô!

   O bicho desandou a correr e o homem sentiu-se aliviado. Veio-lhe à boca um gosto adocicado de sangue. Ou, talvez, canela: um gosto de cuca de banana com crosta de canela. Da cintura para baixo, não sentia mais nada.

   Estava muito cansado. Os braços formigavam. Sorveu, esperançoso, a calmaria da noite. Não ouvia mais o trote fugidio do baio, talvez já estivesse bordejando o açude. Um boi mugiu ao longe. Perto, só escutava o cricrilar dos grilos. Pensou ouvir um som de sanfona, alinhavando uma melodia triste.

   Dominado pela exaustão, recostou-se no alambrado. Precisava descansar. Fizera esforço demais para subir a colina. Mordiscou uns talos de capim para aplacar a sede. Seria melhor que viessem buscá-lo de camionete. A dor no braço esquerdo estava cada vez mais forte e ele agora sentia frio.

   Repentinamente, viu o campo inundar-se de vagalumes, num bailado aleatório.

   O anoitecer no pampa sabia ser bonito.

   Pensou enxergar, lá no alto, o cruzeiro do sul. Depois, pouco a pouco, um véu foi cobrindo a luminosidade das estrelas, que boiavam como candeeiros de prata no céu azul profundo.


                                         - Miguel da Costa Franco -

(livremente inspirado no conto “À deriva”,   de Horácio Quiroga, do qual se surripiou as duas primeiras frases)

sábado, 23 de junho de 2018

Restauração


   Quando despertei, estava meio enjoado. Senti-me oprimido, como se estivesse enfiado numa tumba. Aos poucos, lembrei da truculência de nossos captores e das garras fortes que me haviam sujeitado; da agulhada no pescoço e das presilhas apertadas com que manearam minhas mãos e pés; dos gritos desesperados de Vítor, chamando por mim.

   Tentei mover-me, mas continuava com braços e pernas amarrados. Chamei por meu filho. Meu brado ribombou, soturno, nas paredes da minha cápsula, fazendo um eco metálico, Vítor, Vítor, Vítor...

  Não tive respostas.

   Havia um cheiro de desinfetante no ar, passos descansados e murmúrios incompreensíveis no meu entorno. Ao fundo, soava uma música de ritmo lento e toques sutis.

   De repente, vi-me envolto numa tempestade de areião sob um telhado de zinco. Nada concreto me atingia, mas o barulho era ensurdecedor.

   - Vítor! – insisti.

   Ninguém respondeu.

   Aquela chuva de granizo sobre teto de latas, a um palmo de distância do meu rosto e dos meus ouvidos, continuou por longos minutos, até sobressair do tumulto um silvo estridente e o som de tampas que se abrem.

   Depois, um silêncio absoluto. Implacável.

   Senti que a maca em que se apoiava o meu corpo passou a mover-se lentamente, zumbindo como abelhas. Um sopro gelado atingiu meus pés, subiu devagar pelas minhas canelas desnudas, pelas coxas, pelo ventre exposto e pelo torso, até chegar à cabeça.

   Outros chiados similares, soando do meu lado esquerdo, acompanharam o deslizar da maca para a zona fria.

   Senti que estava agora em espaço aberto. Tinham me retirado do que eu imaginara ser um tubo.

   - Me cubram aqui - protestou uma voz feminina.

   O eco daquele protesto mostrou-me ser amplo o vão do ambiente. Alguém se movimentava ao fundo da peça, mas não parecia dar atenção à queixa da outra.

   - Pra quê essa tomografia? – a mulher insistiu.

   - Sou médico, posso assegurar que isso não foi uma tomografia – respondeu o homem deitado próximo a mim.

   - O que foi isso, então? – ela perguntou.

   - Vítor! – chamei – Alguém está vendo um menino por aí?

   - Não há meninos aqui – disse o médico.

   - Vítor! – gritei mais forte.

   - Tem outros iguais a nós lá fora – disse a mulher. – Do outro lado do vidro. Vestindo camisolões.

   - Como assim iguais? – eu perguntei.

   - Quase iguais – disse o médico. - A mão do meu outro eu não treme como a minha.

   - Eu estou de pé, não estou usando a cadeira de rodas – disse a mulher.

   - Também tô lá? – eu quis saber.

   - Olha pra tudo com muito interesse, não parece cego como o senhor – disse o médico.

   - Tem algum menino?

   - Não. Tem certeza que o trouxeram pra cá?

   - Não sei - respondi.

   - Ele tinha alguma doença? – perguntou o médico.

   - Ele tem. É epilético – eu disse.

   Alguém se aproximou e enfiou um bocado de gaze na minha boca. A mulher gritou de novo:

   - E o meu lençol?

   O médico, em seguida, passou a rugir abafado como eu. A mulher fez seu último protesto – pra quê, isso? - e percebi quando lhe enfiaram um chumaço de gaze boca adentro.

   As macas começaram a mover-se. Ouvi pancadas insistentes sobre superfícies de vidro. Talvez fossem os outros de nós dando sinal de vida ou protestando no lado externo do salão.

   Percorremos um longo trajeto, em comboio, a mulher urrando forte na frente, insatisfeita, depois o médico e eu. Nossos condutores mantiveram-se em silêncio. Cheiravam a éter e borracharia.

   Alto-falantes soaram numa linguagem incompreensível. Fizemos uma curva e as macas se entrechocaram, uma vez ou outra – retinindo metais -, até serem posicionadas lado a lado, com as rodas acomodadas em encaixes no piso.

   Mais instruções estranhas vieram do sistema de som.

   Os maqueiros saíram da sala e a porta bateu. Fecharam-se trancas.

   Sofri um arrepio profundo. Cada um ao seu modo - o médico, a mulher e eu -, começamos a rugir.

   Na sequência, ouvimos três alertas sonoros, agudos e breves. Um perfume passou a dominar, pouco a pouco, o ambiente. Silenciamos. Tinha algo de lavanda no ar, mas era mais abrasivo. Minhas narinas arderam. Tentei, mais uma vez, me libertar. Parecia gás.


- Miguel da Costa Franco -