segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Conto rapidinho



   A menina abre a porta do quarto dos pais e encontra os dois se embolando, nus, em alegre refrega matinal. O pai esconde protuberâncias com a coxa dobrada. Trocam os três umas risadinhas nervosas, até que a menina fecha a porta e sai.

   Sem clima para recomeçar as carícias, o casal abandona o leito e trata de ajeitar-se, vestir-se, escovar os dentes.

   Com a filha novamente deitada no quarto ao lado, o pai dá-lhe bom dia e resolve quebrar o gelo.

   - Que flagra, hein, filhota?

   - É duro acordar e dar com os pais se pegando! - lamenta-se ela.

   O outro a beija e insiste no caminho da naturalidade:

   - Ih, filhota! O pai e mãe se pegam há bem uns catorze anos.

   A menina reforça o tom lamentoso:

   - Eu só queria uma torrada.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Consciência



   A empregada doméstica me dá passagem e deseja um bom dia na boca do elevador.

   Brinco defronte ao prédio com o cachorrinho delicado, conduzido pela jovem paciente de avental azul.

   Um jardineiro corta a grama e uma faxineira varre a calçada da construtora que invadiu o leito da rua com sua hipócrita sala de espera, na esquina da Anita Garibaldi. O animado porteiro da empresa atordoa-os com chistes.

   Caminhando à minha frente, uma babá encurvada conduz um garotinho para a escola.
 
   Vejo um operário fixando um cartaz de “não há vagas” no tapume de um edifício em construção e um pintor dando retoques na janela do segundo andar.

   Um de cada lado da via, os seguranças da clínica estética e da creche trocam cumprimentos entre si, com as carecas reluzindo ao sol da manhã, e avaliam, cúmplices, a bunda avantajada da moça que distribui folhetos entre os carros.

   O pobre zelador engravatado do edifício chique confere, suando em bicas, o estado das fechaduras da gaiola que aprisiona o motoboy.

   O garoto de pés descalços desfila no asfalto quente – o dia ensolarado já passa de trinta graus - e pede moedas para comprar chinelos.

   Usando um estranho método de distribuir saquinhos sobre o espelho retrovisor dos automóveis, sem garantir tempo razoável para realizar as vendas antes que eles disparem, o vendedor de balas corre para lá e para cá.

   Ao lado da banca de revistas, um voraz casalzinho jovem, com camisetas de escola pública, se acaricia numa rara nesga de sombra.

   Tem dificuldades para atravessar a avenida, aparentemente bêbado, o homem velho que veste bermudas surradas e uma camisa do Inter. O brigadiano, que podia ser seu neto, não se move de onde está, sob o arvoredo, para ajudá-lo.

   Uma senhora em uniforme de trabalho – talvez da farmácia ou de alguma lancheria do entorno - descansa escarrapachada num banco da praça, observando o mendigo que luta e se irrita para encher uma garrafa d’água no bocal do bebedouro.

   Cortando a fila de carros que tenta aceder à rua, somente duas mulheres deixam o pátio do supermercado a pé, levando pesadas sacolas nas mãos.

   Quatro trabalhadores terceirizados pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto escavam um buraco enorme na esquina e três carregadores desembarcam produtos alimentícios do caminhão estacionado nos fundos do Nacional. Caixas e mais caixas.

   Aguarda ansioso em seu carro, na frente da lavanderia, um motorista de aplicativo com o olho comprido para a atendente apetitosa do estabelecimento.

   A recepcionista da academia me oferece um iluminado sorriso de boas vindas, com seus dentes alvos tinindo pelo forte contraste com a pele do contorno.

   Exceção que confirma a regra, a fisioterapeuta instrutora de Pilates elogia, condescendente, o meu precário estado atlético.

   Homens e mulheres que cuidam, protegem, consertam. Constroem e limpam. Tratam de embelezar as gentes e as coisas. Zelam, fazem as compras e dão agilidade às entregas. Cozinham, pintam, carregam, conduzem filhos e bichinhos da estima alheia. Às vezes, envergam uniformes de gosto duvidoso, inadequados para o nosso clima. Prestam todo o tipo de serviços, ajudam-nos com exercícios e adulam-nos, quando convém.

   Alguns me cumprimentam, são simpáticos comigo por gentis ou por me reconhecerem das caminhadas frequentes. Outros, de cabeça baixa, por atávica modéstia servil. Dois ou três mostram indiferença ou são um pouco hostis.

   Flertam, amam, descansam. Bebem, irritam-se, cobiçam e caçoam, pois ninguém é de ferro.

   Desnecessário dizer a cor da pele da maioria absoluta dos personagens acima. (Dentro dos automóveis e escolas particulares, das lojas, clínicas, casas e apartamentos, a realidade é outra, bem sabemos). Não será surpresa para ninguém se eu disser que apenas o garotinho caminhando para a escola, conduzido pela mão protetora de sua babá, trazia a tez clara como a minha.