segunda-feira, 11 de maio de 2020

Respira, Abelardo



   Foi quando eu estava na escola primária que tive as noções mais concretas do que seria uma escala de avaliação. Com certeza, os mesmos critérios já circundavam o meu pobre cérebro de forma mais vaga, ainda no ambiente familiar, aplicados a cada situação do dia a dia. Mas, no mundo escolar, as tábuas de aferição do aprendizado ganharam contornos matemáticos bem precisos. Era uma medição simples, como se usava para peso e altura, tamanho do sapato e das roupas ou circunferência da cabeça para bem acomodar o boné.
     
  Na bagagem do conhecimento, levar nota dois, três ou quatro podia ser caso de internação. Representaria, ao menos, o corte do cineminha dominical, das brincadeiras no campinho ou das visitas aos amigos. As notas pouco acima de seis ainda suscitavam olhares de comiseração. O bom ânimo renascia quando despontavam os setes ou os oitos no boletim, mas apenas os noves mereciam aplausos, em especial quando sucedidos de algum número acima de cinco após a vírgula. Em verdade, o esperado, inequivocamente, era o dez. E fim.
   
   No correr da vida, abrandar esta escala de valores para aferir aprendizados tornou-se fundamental. Consegui ser razoavelmente feliz, com triunfos e tombos passando a ser medidos por regras menos rigorosas. Afinal, é razoável que o arroz fique meio empapado de vez em quando, que o efeito do desodorante vença pela metade da tarde, nos dias mais quentes, ou algum resquício indesejado de refeições resista no interior do vaso sanitário após o acionamento da descarga, se a campainha da porta te atropelou justo no início do processo. É normal. A vida é pródiga em apresentar esses   percalços. Se não tratamos de amenizar as expectativas, o viver torna-se infernal. Acho que é meio óbvio que ninguém deixa um capitão (de onde terá saído esta metáfora?) boiando na privada sem um bom motivo exterior: a falta d’água, ou uma pane no mecanismo, ou um atropelo qualquer, como a pressa em atender a campainha. Aprendi que o bom senso subverte a fixação de dar notas para tudo.
   
   Mas aí veio a Judite, e a Judite nunca perdoa:
   
   - Abelardo, não deu descarga de novo!
   
   - Eu dei, Judite.
   
   Sei que seria injusto atribuir também ao coronavírus, que nos forçou à prisão domiciliar, a responsabilidade por esta impaciência. Olhando bem, a coisa já devia ser um pouco assim antes da pandemia. Ou muito assim. (Qual a escala que devo usar aqui, afinal? Estou perdido.) O fato é que o maldito vírus deixou-nos mais meticulosos. Por que ela não aperta outra vez o botão da descarga, e pronto, sem vir com admoestações redundantes para cima de um sexagenário assustado do grupo de risco?
   
   A maravilha das maravilhas foi a descoberta da máquina de lavar. Primeiro, veio a de roupas, item fundamental, junto com o fogão e a geladeira, do primeiro lote de eletrodomésticos adquiridos pela classe média. Depois, a lava-pratos, a sacrossanta máquina de lavar a nossa inesgotável louça suja.
   
   Comprei a minha primeira Enxuta lá pelos anos 80. Essa era a marca do artefato salvador. E várias outras se sucederam: Cônsul, Brastemp, Eletrolux, Panasonic, o que seja. Não me ligo muito nesse negócio de branding. Posso até estar errando a marca de alguma. Não é isso o que importa. Para mim, lava-louça é lava-louça, e ponto. Sou meio comunista, como se diria hoje em dia neste Brasil tão doido, onde poucos sabem mesmo de que se trata o comunismo. Sim, comunista, segundo a visão terraplanista em voga. Odeio ter tantas opções quase iguais na hora de comprar um aparelho qualquer. Já estou de saco cheio deste capitalismo imbecil e suicida, que leva flores cultivadas na Holanda, numa sopa química e poluente, para serem vendidas do outro lado do mundo, na Tailândia ou Bangladesh. E faz transitar pela distante China, em algum ponto do processo, quase todo bem de natureza industrial.
   
   Mas isto é outra história. O importante aqui é que administro este artefato lavador benfazejo há quase quarenta anos e isto fez de mim uma pessoa melhor, infinitamente mais feliz. Um cidadão nota sete ou oito. Vá lá, nota oito, não vamos exagerar na modéstia. É que máquinas de lavar-louça não são perfeitas. Não são. Nã-nã-nã-ni-não. Sempre resta uma gosminha aqui ou ali, um resíduo de borra de café numa xícara mais funda, uma borda mal lavada numa travessa, um prato que é reprovado no ENEM domiciliar.
   
   Há formas sabidas e ressabidas de driblar estes desconfortos: uma pré-limpeza dos restos mais grosseiros e uma esfregadinha com esponja aqui ou ali são sempre bem-vindas. Com quatro décadas de estrada – ou lavação de louça, no caso – isto é conhecimento já sedimentado. Absorvido. Incorporado. Aprendi também a ser mais tolerante. Na pior das hipóteses, a sujinha vai para a máquina de novo. Volta ao início do processo. Sem chilique.        
   
   Além da fiscalização permanente da Judite, o que mudou com a chegada da pandemia, foi a frequência de uso da lavadora. Ao menos duas vezes por dia, vejo-me a recheá-la com copos e pratos, talheres e potes, panelas pequenas e frigideiras, conchas, escumadeiras, vasilhas, descascadores e o escambau. Ateu convicto, eu tenho rezado todo o santo dia para que ela resista e não quebre em meio a estes tempos de isolamento social tão necessário.
   
   Mas... E a Judite?
   
   A Judite, coitada, ainda é uma escrava da nota dez.
  
   - Olha, Abelardo, nestes potinhos tem que passar uma esponja antes...
   
   - Quando eu acho que precisa, eu passo, Judite.
   
   - Se não, a máquina não limpa.
   
   - Nesse aí, eu passei.
   
   - Fica cheio de gruminhos...
   
   - Eu passei, Judite. Uso estas máquinas há quarenta anos... Sei como se faz.
  
   Poupando-se de apenas devolver o item mal lavado à pilha de louça suja, ela volta à carga, sempre professoral:
   
   - Se passou, passou pouco, Abelardo.
   
   Respira, cidadão nota oito. Respira. Deve sofrer muito, a pobre Judite.


                             - Miguel da Costa Franco -

sábado, 14 de março de 2020

Quando morre um cavalo

Texto publicado na edição de 14/15 de março da revista

   

   A edição da Matinal News, de 28 de fevereiro, registra a morte em serviço de uma égua do 4º Regimento de Polícia Montada, momentos antes da partida entre Internacional e Tolima, classificatória para a Copa Libertadores da América de 2020. A reportagem cita a simpática homenagem prestada pela Brigada Militar através da rede instagram, em que aquela instituição dedica ao animal estrofes de um poema de Chiquito e Bordoneio, grupo regionalista gaúcho:
Quando morre um cavalo
Até o céu fica nublado
Uma cruz marca a coxilha
E o dono sofre calado.

   Uma análise preliminar indicou morte por lesão cardíaca.  De saída, associei este infarto equino aos fortes receios que inundavam o ar respirado pela égua, no entorno do Gigante da Beira-rio, em razão da precariedade do Inter de Coudet. Mas, não. A matéria da Matinal seguia rumos mais sutis e inusitados: “(...) suspeita-se que o pobre coração do animal sofria mesmo era de saudade (...)”. Seu companheiro de trabalho, de longa data, um sargento, havia se aposentado uma semana antes. Aventava-se ser um caso de “coração partido”.

   Que bonito isto, pensei. E a notícia me comoveu por vários motivos.

   Alimentei minhas fantasias infantis com incontáveis filmes de bangue-bangue, em que sempre se somava à bravura do mocinho a agilidade, a resistência e a esperteza de sua montaria. Criado no sul do continente americano, acompanhei inúmeros desfiles a cavalo a cada Semana Farroupilha e vivi com alguma intensidade a revalorização da cultura campeira pela via dos festivais da canção nativista. Mais ainda, desenvolvi uma trajetória profissional vinculada ao campo e pude usufruir da companhia de amigos e primos fazendeiros com quem exercitei a minha versão de centauro dos pampas. Reconheço, pois, o vínculo forte que deve ter se estabelecido entre o sargento e sua égua. Parceria. Cuidado. Confiança. Amor. Temas dignos de serem cultuados e que, de fato, costumam povoar a escrivaninha dos poetas. Corações partidos, aliás, também.

   Gostei de ver policiais militares voltando-se a explicar as dores do mundo através da poesia, algo tão incomum de se ver associado a figuras duronas, que sempre estão a cultivar certa aspereza no trato, e costumam preservar-se de intimidades. Pois a poesia aproxima. A literatura ajuda a compreender os outros seres humanos e suas motivações. Após ler a notícia, pus-me a sonhar com o dia em que teremos uma polícia amistosa e sensível, a quem se possa recorrer com confiança e naturalidade, sem temor ou risco de passarmos de vítimas a delinquentes após qualquer breve troca de impressões.

   Comovi-me, também, com as homenagens de outros militares à “colega” morta em serviço. Muitos homens de farda, em comentários no instagram, bateram continência para o animal pelos tantos anos de trabalho prestados à segurança pública, dedicando-lhe as honras que usualmente apenas dirigiriam a um verdadeiro colega abatido no cumprimento do dever. A égua teve reconhecido e glorificado o seu status de longeva e dedicada servidora pública “associada”.

   Isto não é pouco. Vivemos tempos de muita maledicência pairando sobre os funcionários públicos, maltratados por atrasos salariais, reformas nas leis trabalhistas e previdenciárias, falta de equipamentos apropriados, dificuldades de aperfeiçoamento profissional, dinamitação de seus planos de carreira e tantas outras ações indignas de quem só pensa em reduzir o Estado, de modo que ele sirva apenas para si e para os seus. E isto também atinge a Brigada, junto com milhares de dedicados servidores anônimos.

   Mas justamente aí uma coisa me incomodou. Porque as polícias militares, no Brasil afora, vêm sendo utilizadas como instrumento de coerção dos movimentos sociais por estes que almejam um Estado privatizado para si e para os seus. Witzel, no Rio, a quer mirando na cabecinha dos cariocas. Richa usou-a para agredir com violência professores paranaenses em greve. As arbitrariedades da polícia de Alckmin catapultaram as mobilizações de 2013 em São Paulo. Bombas de gás lacrimogêneo foram jogadas contra simples foliões na Cidade Baixa, em Porto Alegre, uns dias atrás. A polícia militar baiana é acusada de “queimar” o arquivo Adriano da Nóbrega, depositário de segredos perigosos para o establishment bolsonarista.

   São muitos exemplos de esquadrões treinados para colocar-se contra as demandas legítimas das populações empobrecidas e usurpadas em seus direitos. Contra o povo do nosso País. Em especial, em seu direito de lutar por um Estado garantidor de princípios civilizatórios básicos, como o acesso à saúde, educação, moradia, terra, saneamento, meio ambiente sadio, liberdade de manifestação e expressão, trabalho digno, direito de ir e vir, segurança e inviolabilidade dos lares. Em suma, trata-se de polícias que atuam para reprimir, não para garantir a palavra aos desvalidos. Que se portam como defensoras acríticas e violentas de quem promove a degradação da vida cidadã, mesmo que alguns dos indivíduos em suas fileiras assim não queiram - talvez aí incluídos os seus poetas.

   Temos as polícias que mais matam. São milhares as mortes ditas acidentais, de sua responsabilidade. Notícias que se têm das polícias militares, muitas vezes, transitam até pelo envolvimento com grupos organizados de extermínio dos “culpados de sempre”, normalmente a população negra e pobre. Os tais justiçamentos.

   Vou lhes dizer, enfim, o que me incomodou de verdade e me fez passar do deleite para a apreensão na notícia da Matinal. A égua falecida, alvo de homenagens e manifestações de apreço e, até, de um surpreendente poema assinado pela instituição, era chamada de Justiceira. Jus-ti-cei-ra. Justiceiro ou justiceira são termos que remetem, normalmente, àqueles ou àquelas que se arrogam o direito de fazer justiça pelas próprias mãos. Tudo o que não se deseja de um agente público, num estado democrático de direito.

   Que tristeza, Justiceira! Vá em paz. Espero, de verdade, que durante a tua jornada não tenham te transformado em instrumento de perversão da justiça, como quer o teu nome.

   Morreste, e o teu dono sofrerá calado, como diz o poema. Mas vale lembrar que o teu dono não era o sargento que te montava, nem o batalhão que te alimentava, mas, sim, todo o povo gaúcho, trabalhador ou desempregado, urbano ou rural, em suas múltiplas variações de cor, raça, origem, gênero, opção religiosa, ideológica ou sexual. Teu verdadeiro dono, cujo sofrimento calado se deve, muitas vezes, ao opressivo tacão militar, espera por uma polícia eficiente contra os criminosos, sim, mas companheira dos cidadãos e respeitadora de seus direitos. Que lamente qualquer ferimento ou morte.

   Desejo que o poema que mereceste como epitáfio, Justiceira, instigue aqueles que te batizaram – não foi culpa tua! - a refletir sobre o papel que exercem na sociedade. Que a poesia, ainda brotando em espasmos na caserna, devolva às corporações militares a empatia pelo cidadão comum.

          - Miguel da Costa Franco -