quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A noivinha do Aristides

 

    Clair era uma baixinha furiosa, metida e faladeira. Tinha idade incerta, mas era conhecida naquelas bandas há mais de 30 anos. Nada fizera de importante que merecesse crédito. Diziam dela que era louca por dinheiro e flor de dadeira, mas Mãe Damares assegurava, em nome do Cristo ressuscitado e do indicador enluvado da mão direita, que ela era virgem.

   Usava um corte de cabelo meio masculino, queimado de parafina, mas pintava as unhas de rosa, com estampas de bichinhos. Não dava bola para dietas. Adorava um bom x-tudo, café bem doce, leite condensado e margarina.

  Os amigos de Clair se dividiam entre os evangélicos, os traficantes, os picaretas de automóveis, seguranças particulares, policiais furrecas e escrotos em geral. Ou tudo isso misturado.

  Morava por conveniência, há coisa de três anos, num puxadinho de um sujeito parvo e troncudo, que arrotava ser caucasiano puro, apesar do tom queimado da pele. Diziam dele ter a inteligência de um moirão.

   A baixinha tinha um humor perverso e agressivo. Fazia piada de loiras a pretos e índios. De portugueses, argentinos e judeus. Não perdoava os travestis, as sapatonas, os veados e os caipiras... Achava graça de tudo que não fosse ou não quisesse parecer Clair. Cabelo afro causava-lhe frouxos de riso e levava uma foto do Malafaia de cuecas no chaveirinho do Chevette.

  Tinha um site de fofocas, e de todos falava mal, como se o belo, o justo, o correto e o preciso vizinhassem com ela ali naquele buraco do subúrbio. Maldizia um vizinho qualquer por ser fraco na bebida, outro porque recusara um pastel, um terceiro por ser ateu, o quarto, por ser pai-de-santo, todos juntos por acreditarem na vacina.

  Gostava de um bate-boca e mantinha seu risinho de escárnio pendurado no canto dos lábios fizesse chuva ou fizesse sol.

   Se a má vontade contra ela crescesse muito e Clair ficasse carente de afeto, mentia ter sido esfaqueada por um maluco, se internava em casa por quinze dias, para que meia dúzia de incautos sentisse dó.

   Paixão verdadeira tinha pelos fardados. Pouca distinção fazia entre militares de carreira ou milicianos, vigilantes ou porteiros de hotel. Desconhecia as patentes. Para ela, o importante era poder andar armado e ganhar dinheiro fácil, não fugir da batalha e saber obedecer.

   Ela se fazia de santinha, mas só tirava a minissaia com fresta, que insinuava um traseiro cavernoso, nos dias de culto na Igreja Transnacional da Graça do Santíssimo Jesus Queiroz.

  Era voz corrente que se vendia barato: por um rabo de galo, uma cachacinha com Undenberg ou um martelo de conhaque Napoleão. Beijava, manoteava, bolinava e se deixava bolinar. A fama de dadeira que alimentara corria por toda parte. Mudava de um partido para outro como trocava de calcinhas. Mas não se pode dizer de onde veio o disse-me-disse. Dadeiras dão. Muito. E Clair não dividia a rachadinha com ninguém. Só em casa, com gente da família, quando fazia xixi de porta aberta.

   O que todos falavam, de Resende a Grajaú e do mar até a serra, é que ela sempre fugia na hora agá. Na hora do vamos ver, negava fogo.  

   – Dá, Clair?

   – Não dou.

   – Ah, deixa!

   – Não deixo.

   Fosse homem, diriam que Clair era brocha.

  Ela alegava em sua defesa que era noivinha do Aristides, um sargento ativo da AMAN, com quem prometera se casar virgem. Que o homem era um querido, mas muito brabo e brigava bem.

   Mãe Damares, a pedido dele, volta e meia fazia o teste do dedo para afiançar a pureza de Clair. Queria ajudá-la a guardar-se fresquinha para o gentil Aristides.

   Um bom malandro, naquele lugar machista,  insistiria outra vez:

   – Pô, Clair, não vai me dar, mesmo?

   Parece que o segredo era esse, passar da terceira tentativa... Até com o noivo funcionava. Diante de mais bolinação, ofertas de propina para garantir o perdão do santo e um farto jato de lubrificante, a noivinha do Aristides baixava à meia altura a calcinha dos ursinhos carinhosos, balançava a bundinha repolhuda, e convidava o insistente a satisfazê-la de ré.

   "Nesse mundão de mentiras", dizia, “a verdade é uma só: fiofó não tem tramela. E o dedinho da Mãe Damares sempre teve nojo de cu".

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Poeminha para a chuva


Adoro a chuva insistente
que encharca os fascistas,
defensores da truculência
e das armas.
Os fomentadores das milícias,
das mumunhas
e das rachadinhas.
Os crentes num deus mau
e no poder sacrossanto
dos vermífugos.
Adoro a chuva que fustiga
os plantadores imbecis
contrários à grande
importadora comunista.
Os arautos da liberdade
absoluta: de mentir,
matar e desmatar,
e ser um grande filho da puta.
Uma dúvida me ocorre:
a quem atacarão os abobados
que se atrapalham com siglas?
O STF ou o FGTS?
Quem se importa?,
berrariam eles.
Que derrubemos
o alfabeto inteiro!