quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Tarde de faxina


   Eu odeio quando Jacinta não capricha no serviço, esquece da sujeira acumulada nos cantos e de tirar o pó dos quadros e imagens. Hoje, tratei de enchê-la de recomendações. Ameacei até buscar outra empregada mais trabalhadeira, embora, na realidade, não tivesse a mínima intenção de fazê-lo. Mas fui duro, como não costumo ser. Queria mais esmero e dedicação.

   Ela baixou a cabeça, desculpou-se. Admitiu que havia sido um pouco desleixada na última semana. Andava meio ruim dos nervos. Até fiquei com um pouco de pena. Acabei lhe dando um analgésico.

   Jacinta precisa muito trabalhar, tem o filho daquele demônio desnaturado para criar sozinha. Aqui, pelo menos, eu posso me ocupar dele durante algumas tardes. Nós nos damos bem.

   No meu colo, o pequeno agora pintava com lápis de cor uma árvore grande à beira do lago, como eu havia sugerido. Riscos vigorosos cruzavam o papel de um lado a outro, ultrapassando sem capricho os contornos da copa larga que eu havia rabiscado.

   - Assim vai quebrar a ponta do lápis outra vez - eu avisei, posicionando-o mais confortavelmente no meu colo. – Com menos força, fica mais bonito.

   Ele sempre me atendia, não sei se por respeito, medo ou atenção. Era obediente. Reduziu o ritmo do tracejado. Mais calmo e dócil, nos dávamos melhor.

   Jacinta nunca o deixava comigo sem um mar de advertências: não quebrar nada, não pegar nos livros da estante sem licença, não fazer lambuzeira com a cola, atender a todos os meus pedidos, todos.

   - Te sossega, viu!

   Às vezes, o pequeno se incomodava com os movimentos que eu fazia.

   - Me deixa desenhar - reagia.

   - Tava tentando pegar o lápis – eu retrucava.

   Ou dizia alguma coisa reconfortante, dava-lhe um beijinho atrás da nuca ou na cabeleira escura, sugeria que pusesse algum barquinho a navegar no espelho d’água ou um avião no céu. Aí ele me perguntava o que era espelho d’água e se distraía de novo no balancinho do meu colo, as coxas gordinhas e mornas entreabertas, abraçando-me, delicadas.

   Jacinta, àquelas alturas, devia estar passando um pano úmido nos bancos e tirando as teias de aranha, coisa que nunca gostava de fazer. Eram tantos. Mas hoje precisava caprichar. Ao menos, hoje. Devia dar graças. Como iria trabalhar se não pudesse deixar o filhote aos meus cuidados?

   Mas Deus tudo provê.

   Pela janela de vidros coloridos, o sol da tarde espalhava cores confusas sobre nós, que se misturavam em nódoas suaves à gravura do pequeno. Era lindo de se ver.

   Reflexos amarelados dançavam sobre a mesa, mudavam de tom, na cadência das folhas da árvore lá fora, a mover-se entre os raios de luz e o vitral. Perseguindo as manchas com a mão livre, pedi que ele cantasse comigo o “Meu pintinho amarelinho”. Era a única canção infantil que eu conhecia.

   Ele se pôs a cantar orgulhoso de si. Afinamo-nos. Enfim, entabulamos um mesmo ritmo. Movíamo-nos, alegres, acalorados, naquela comunhão prazerosa.

   Ouvi os passos arrastados de Jacinta ao lado de fora da porta, dirigindo-se para a entrada lateral. É provável que fosse despejar no jardim o balde com água suja.

   Restavam-nos ainda uns dez minutos para brincar. A faxineira era muito respeitosa, jamais entrava no meu canto sem bater. Seguimos nos embalando, o menino e eu. Ele virou o rosto para mim e estranhou me encontrar de olhos fechados.

   - Dormiu?

   - Tava rezando – eu disse. – Vai, desenha mais. Que vai ser agora?

   - Tá pronto. Não falta nada.

   - Falta, sim – eu disse, mantendo o ritmo. - Não tô vendo bicho nenhum.

   - Tem aqui um passarinho.

   - Desenha mais – falei com a voz sofrida.

   Ele riscou três ou quatro gaivotas no espaço vazio do céu, como as que eu havia lhe ensinado, dois pequenos arcos com um ponto grosso no meio, marcando a posição da cabeça.

   - Põe umas frutinhas na árvore. Umas maçãs.

   Ele tomou o toco do lápis vermelho e pendurou na árvore umas três ou quatro bolotas rasuradas. Depois, olhou para as coxas, preocupado. Reduzi um pouco a pressão sobre elas. Passei meu outro braço sobre a sua barriga, acariciando-o, escondendo-me. Ele pegou o lápis roxo e desenhou uma bola no meio da copa da árvore.

   - Tem uma cobra.

   Mantive o movimento. Ele tratou de marcar um segundo círculo dentro da esfera arroxeada.

   - Essa aqui  é a bocona da cobra.

   - Está comendo as maçãs? – perguntei, arfando.

   - Não sei. Só vi que tem uma bocona cheia de dentes.

   - Ih! Virei o tubo de cola nas tuas perninhas – eu disse.

   Peguei a caixa de lenços umedecidos que deixara de sobreaviso e puxei um deles. O menino ficou olhando para a bisnaga branca imóvel sobre a escrivaninha.

   - Deixa eu limpar ligeiro essas pernocas, se não tua mãe vai ficar muito, muito, muito, braba. Melhor não falar disso pra ela.

   Prendi entre as minhas coxas a cobra faminta e escondi-me sob o pano negro. Passei o lenço na pele macia do menino, até deixá-la outra vez limpinha e sedosa. Depois, ergui-o pelos sovacos e coloquei-o ao lado da cadeira. Revisei suas roupas à cata de alguma inconveniência.

   - Agora, corre lá. Vai mostrar pra mamãe o teu desenhinho.

   Ele abriu um sorriso desconfiado, pegou a folha de papel toda riscada com lago, casa, sol, árvore, céu, maçãs, gaivotas, passarinho e cobra, e saiu correndo da sacristia.

   - Benção, padre.

   - Deus te abençoe, meu filho.


                                                             - Miguel da Costa Franco -


2 comentários:

  1. Soco no estômago, daqueles teus escritos que vem acariciando ternamente o leitor e passa a lâmina afiada enquanto estamos perplexos

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