Um jovem assessor do prefeito de Porto Alegre, alçado ao cargo por ter estagiado num think tank do Alabama, teve uma ideia genial. Espelhando-se no sucesso de operações de naming rights que levaram ao rebatismo do estádio do São Paulo Futebol Clube para MorumBIS e do Estádio Municipal do Pacaembu – também em terras paulistanas – para Mercado Livre Arena Pacaembu, propôs ao nosso ardiloso prefeito buscar caminho semelhante, pela via inversa, para brecar a crescente desvalorização dos bairros atingidos pela enchente de 2024.
Já explico: normalmente são as empresas que pagam por essa mudança para melhor
divulgarem sua marca ou seu nome. Aqui, a prefeitura trataria de encaixar o programa
nos recursos ofertados pelo governo federal para a recuperação do Rio Grande do
Sul após a hecatombe, pagando a empresas idôneas pelo empréstimo de seus nomes
ou da marca de algum de seus produtos por um prazo determinado.
O assessor lembrou que a proposta convergia com o interesse das
construtoras em promover a revalorização dos imóveis à venda e com a conveniência
de apagar da memória os nomes dos bairros atingidos, onde havia muitos
lançamentos programados. A má fama estava freando os negócios.
A ideia foi aprovada com entusiasmo. Por sugestão da consultoria internacional
contratada para desenhar o projeto, chamaram-no de Cleaning Program. O nome caía bem para enfocar as áreas afetadas e
que, diga-se de passagem, ainda fediam a cocô.
A proposta elaborada pela assessoria previa vinte anos de cessão de
direitos de uso do nome. O prefeito reduziu o prazo para dez anos, mas a Câmara
aprovou apenas cinco. Não quis assustar o empresariado.
Na cerimônia de lançamento, o prefeito agradeceu a parceria cidadã demonstrada
por seus aliados da Câmara de Vereadores, da Federação das Indústrias, da
Federação do Comércio, das empresas de transporte e do terceiro setor – as
forças vivas da comunidade –, que prontamente se haviam associado ao programa.
O prefeito estava certo de que o Cleaning
Program daria outras cores a uma cidade enlutada, temerosa e sem esperanças.
O primeiro edital selecionou oito bairros da cidade atingidos fortemente
pelas enchentes: Menino Deus, Pedra Redonda, Ipanema, Lami e Ponta Grossa, na
zona sul; Vila Farrapos, Humaitá e Sarandi, na zona norte.
Com muito bate-boca e cotoveladas, a Câmara aprovou os novos nomes, aqui
dispostos em ordem alfabética anunciados sob aplausos da claque e vaias
esparsas: Arruelas Farrapos, Canetas BOC Ponta Grossa, Caninha Sarandi, Chinelas
Ipanema, Lajotas Pedra Redonda, Lar de Idosos Menino Deus, Massa Miojo Lami e Minimercado
Dona Lurdes Humaitá.
O nome de Águas Boas de Lindóia, reivindicado para o Jardim Lindóia, foi
rejeitado sem maiores explicações. Talvez porque a menção a “águas” não
ajudasse para o esquecimento.
Por iniciativa de um vereador do mesmo partido do prefeito,
condicionou-se a assinatura de contrato com o Lar de Idosos Menino Deus à
retirada da expressão “de Idosos”, para não dar ao bairro os ares de um
condomínio da terceira idade. Mesmo tendo sido acusado de etarista, sua
proposta foi aprovada.
Foi tanta a receptividade do Cleaning
Program entre o empresariado da capital que o prefeito resolveu atender aos
insistentes reclamos das entidades de classe por sua ampliação. Estendeu-o a
toda a cidade, sob a alegação de que as enchentes haviam prejudicado Porto
Alegre como um todo. Publicou-se um segundo edital, com o que novas
denominações foram aprovadas pela Câmara. São elas: Absorvente Bela Vista; Amaciante
Nonoai; Avivamento do Bom Jesus Church; Celulose QWTC Floresta; Empório Gourmet
Boa Vista; Leite da Vovó Glória; Moinhos das Alagoas; Motel Copa 70 Partenon; Souza,
Pinheiro, Lomba Advocacia e Vila Mapa Astral On Line.
A comunidade da Lomba do Pinheiro mostrou-se muito desgostosa com a
troca do nome para Souza, Pinheiro, Lomba Advocacia, uma vez que apenas
recentemente o bairro ganhara alguma notoriedade, em razão da obra do escritor
José Falero, agraciado pela própria Câmara com o título de Cidadão de Porto
Alegre.
Uma representante do Clube de Mães do Bairro Partenon formalizou
protesto pela nova denominação do bairro – Motel Copa 70 Partenon –, justificando-se:
“ninguém mora em motel”.
Um grupo de populares, sete deles com a camiseta da seleção brasileira,
protestou pela troca de Moinhos de Vento por Moinhos das Alagoas: uma baixaria,
uma piada de mau gosto. Na sessão seguinte, os vereadores reverteram a decisão.
Aproveitando o ensejo, aprovaram às
pressas outros nomes de bairros: Auxiliadora virou Auxiliadora Condominial; Chapéu
do Sol mudou para Chapéu do Virando Sol; Cristal passou a Vinho Lágrimas de
Cristal; Medianeira virou Aposta Certa Medianeira e Passo da Areia tornou-se
Funerária e Marmoraria Passo da Areia.
O vereador mais ferrenho da oposição citou Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães
Rosa, para justificar seu voto contrário ao projeto: “Como é que podem remover uns nomes assim? (...) Nome de lugar
onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. (...) Precisava de se ter mais
travação. Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele...”.
Mas foi muito vaiado pelo público presente na plenária, levado em comboio pelas
entidades empresariais e partidos da situação. A presidenta da sessão, de
origem capitã da Brigada Militar, ridicularizou o voto do colega pelo teor
arrevesado e inculto de seus argumentos e pelo uso do nome de Deus em vão.
Circularam pela internet denúncias de que o CNPJ da empresa Avivamento Bom
Jesus Church havia sido registrado há apenas quinze dias, mas ninguém se ocupou
de fazer maiores averiguações sobre o fato.
Ainda não se teve notícia da efetiva disponibilização dos recursos da
União para o Cleaning Program, mas
todos os articulistas da grande imprensa local já foram escalados para fazer louvações
a ele e criticar sistematicamente a insensibilidade e a ineficiência do governo
federal. Como um afago à oposição, que teria influência sobre a chave do cofre,
os vereadores da situação sugeriram conceder-se ao bairro Bom Fim o nome de Berlim
Bom Fim, oferecendo uma módica paga ao letrista da clássica canção porto-alegrense,
figura frequente nos comícios da esquerda democrática.
O letrista não foi ouvido para expor sua posição a respeito.
Assim, vamos.
Chuva, porém, ainda se chama chuva.
Nota do autor: Esta é uma obra de ficção e sátira político-social. O programa, as decisões administrativas, os personagens e os episódios narrados são inteiramente fictícios. Nomes de empresas, marcas, entidades, lugares, pessoas e obras reais são utilizados exclusivamente como recurso literário, não implicando qualquer participação nos fatos descritos ou atribuição de condutas às pessoas ou entidades mencionadas. Nenhum gestor público da capital gaúcha teve essa ideia. Ainda.
Texto publicado na Revista (Parêntese) em 31.10.2026
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