domingo, 16 de agosto de 2026

Resenha de "A filha do Dilúvio", por Patrícia Kunrath Laurino


Meus senhores, o poder da literatura está exatamente no rebuliço que ela provoca dentro da gente.

Eu precisei reler A Filha do Dilúvio, e novamente estou órfã desse livro. E digo: provavelmente, daqui a um tempo, vou precisar relê-lo novamente. Tem muita história dentro dessa história que a gente precisa olhar, que a gente precisa se enxergar.

A trama começa numa noite de chuva, quando Rosa, uma mulher em situação de rua, chega com a filha recém-nascida e Caçapava à casa de João e Sandra, um casal de classe média. Uma circunstância inesperada coloca aquelas pessoas dentro do mesmo espaço.

Miguel consegue colocar lado a lado mundos que normalmente não se encontram. Eles se veem, mas não se enxergam. Pessoas que vivem na mesma cidade, respiram o mesmo ar, passam pelas mesmas ruas, mas experimentam realidades completamente diferentes. E então, por uma circunstância inesperada, esses mundos se encontram.

Um livro que tem uma construção de personagens que não romantiza o nosso olhar. Não entrega mocinhos nem vilões prontos. Dá a cada um uma história, desejos, medos e contradições. Faz a gente se aproximar, desconfiar, julgar. Uma narrativa inteligentíssima.

Porto Alegre como cenário, como parte da história. A cidade das diferenças, dos contrastes, das pessoas que dividem os mesmos espaços sem necessariamente compartilhar as mesmas oportunidades.

Uma escrita que conduz a história sem neutralidade, que revela questões enormes: desigualdade, preconceito, privilégio, maternidade, abandono, poder.

Para mim, aí está a genialidade dessa obra: colocar uma situação diante de nós e nos deixar com o incômodo, com o famoso nó na garganta. O incômodo necessário. A literatura cumprindo o seu papel de mudar algo dentro da gente.

O Alma de Papel teve o prazer de conversar com Miguel sobre essa obra. Eu já era fã desse escritor e, depois desse encontro, ficamos ainda mais encantadas com sua literatura e sua maneira de construir histórias que continuam reverberando dentro da gente.  É o livro que vai fazer a gente olhar para as pessoas em situação de rua com pouco mais de sensibilidade. 

Obrigada, Miguel, pela entrega dessa história para o mundo!


Patrícia Kunrath Laurino é professora e curadora do Grupo de Leitura Alma de Papel

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