terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O galo foi ao Iguatemi



   Netinho era um sujeito despachado. Para tudo, ele dava um jeito. Como achou maldade amarrar o Ariovaldo pelas patas, como queria o caseiro, entrou no Shopping Iguatemi abraçado no seu galo. Não lhe restava alternativa. O machucado do bicho era no pé, bem junto do esporão, e a caixa em que o tinham trazido estava imprestável, de tanto que Ariovaldo se havia borrado durante a viagem.

   Além disso, Lavínia tinha passado dias buzinando nos seus ouvidos:

   - Tem que levar. Não vê que o bichinho tá sofrendo? Tem que levar. Vai fazer o quê? Se Maomé não vai à montanha, a montanha tem que ir a Maomé.

   Esse Maomé, no caso, era a filha veterinária, que havia aberto uma clínica para pequenos animais na área nova do shopping. Havia prometido ir ver o Ariovaldo no domingo, mas não havia cumprido o trato. Ao pai, tinha sugerido que galo velho dava sempre um bom caldo. Mas naquele sítio não se comia bicho com nome. E o galo se chamava Ariovaldo.

   O cocoricar do moço alertou o segurança do shopping, que não deixou Netinho embarcar na escada rolante atrás de Lavínia.

   - Galinha, aqui, não pode – disse, peremptório.

   - É galo – retrucou Netinho.

   - Como, não? – gritou Lavínia, do alto da escada.

   - São ordens.

   Equilibrando-se nos saltos altos e segurando a barra do vestido para não deixá-lo prender-se nos degraus móveis da escada, Lavínia tentava descê-la em sentido contrário para socorrer o marido. Em vertiginoso contraponto à elegância da esposa, ele vestia uma simples bermuda, camiseta do Colorado e sandálias.

   - Tou levando o bicho na veterinária – explicou-se, Netinho. – Fica no segundo andar.

   - Lá só atendem gato e cachorro – afirmou o outro.

   - Tá maluco? – xingou Lavínia, lutando para descer a escada. – Lá se cura tudo o que é bicho. É da minha filha. Eu sei.

   - Meu camarada, o galo tá machucado e precisa de atendimento. Qual o problema de a gente subir? – argumentou Netinho.

   - Coelho, sagui, hamster, iguana... Até rato ela já atendeu – seguia listando Lavínia, descendo no contrafluxo as escadas. – É uma veterinária muito boa, se tu quer saber.

   - Lá só entra animal de estimação, senhor.

   - É o que ele é – gritou Lavínia, quase chegando. - De estimação. De muita estimação. O nome dele é A-ri-o-val-do.

   - Faz o seguinte, meu compadre: liga pra clínica – sugeriu Netinho.

   O homem pegou o rádio e acionou o teclado:

   - Chefia, tem um elemento aqui querendo subir com um galo na veterinária do segundo andar.

   - Elemento é o caralho – ofendeu-se Netinho.

   O agente deu um passo atrás e levou a mão ao cassetete. Fez um gesto de arrependimento. Ariovaldo cocoricou mais forte, chamando a atenção de quem transitava pelo saguão.

   Lavínia chegou furiosa ao pé da escada, meio desequilibrada, adiantando-se a Netinho. Botou o dedo na cara do homem de farda: 

   - Tu chamou meu marido de elemento? Que é que tu tá pensando?

   - Calma, Lavínia! – interpôs-se Netinho.

   - Vai deixar ele te xingar?

   - Fica fria, pô. Ele já tá resolvendo.

   - Positivo – respondeu para o rádio o homem fardado de negro.

   Depois, dirigiu-se ao casal:

   - Desculpa aí, podem subir. Não sabia que eles atendiam galinhas.

   - É um galo – disse Netinho, irritado.

   - Podia ser até um urubu, tinha que deixar passar – esbravejou a outra.

   Puseram-se em marcha, escada acima: Lavínia na frente, com seu vestido longo e bufante – não podia ir ao shopping toda desarrumada, ora essa! -, depois Netinho enlaçando o Ariovaldo e, ao fim da fila, o segurança.

   Percebendo a vitória na contenda e o avanço sobre o território inimigo, Ariovaldo lançou um forte cocoricó, que foi aplaudido pela galera aglomerada no saguão. Ao fim da escada, o vigilante estacou e deixou-os afastar-se rumo à Clínica Bem Estar Animal.

   - Uma galinha no Iguatemi? – perguntou alguém, olhando os vestígios de Ariovaldo pelo piso do corredor: uns borrifos esverdeados de fezes e um rastro de penas brancas.

   - Diz que é galo – respondeu o segurança. – Podia dar um bom caldo.

   Na sala de espera da clínica, Netinho resolveu sentar. Estava cansado de carregar aquele bicho. Lavínia foi tratar do atendimento. Os demais pacientes que aguardavam por consulta – um buldogue francês agitado e um pinscher gritão – não receberam bem a companhia de Ariovaldo. Hostilizado e nervoso, o galo voltou a defecar, agora no colo do dono.

   Tentando avaliar o estrago em suas roupas, Netinho se descuidou, e Ariovaldo voejou pela sala, sob os latidos furiosos do restante da clientela. Correu pela escrivaninha da secretária, espalhando canetas e papéis, derrubou um porta-retratos, quebrou uma palmeirinha e bateu asas até uma estante, onde se abrigou.

   Penas brancas desceram lentamente até o chão.

   Lavínia, que havia fechado a porta para o corredor do shopping, dava ordens para Netinho:

   - Pega ele! Cuidado com o abajur! Não deixa ele voar! Junta o porta-clipes! Vai cair o pôster!

   Sem saber como tirá-lo de onde se metera, Netinho avaliou que Ariovaldo havia ficado bem, empoleirado na prateleira: protegido dos cães e longe do seu colo.

   - Deixa ele aí. Vou aproveitar para me lavar um pouco.

   - Tu tá louco? – disse Lavínia. – Não me deixa sozinha com esse peste.

   - Ele vai ficar bem – assegurou Netinho, sempre tranquilão.

   Entrou para o banheiro e tratou de limpar as partes sujas de sua roupa. Havia sido grande o estrago. A perna direita da bermuda e a parte frontal da camisa do Inter, na altura da barriga, tinham manchas pastosas.

   Uma nova agitação na sala de espera interrompeu sua pequena folga. Acossado pelo buldogue, Ariovaldo buscava outro refúgio, saltando entre as poltronas, escorregando pelo tampo de vidro da mesa de centro, apoiando-se na cabeça da dona do pinscher e alçando voo até o topo do bebedouro, onde mais uma vez descansou.

   Lavínia teve de abrir a porta da clínica para que a cliente pisoteada se escafedesse, com seu mimoso filhotinho. Mas fechou-a outra vez para evitar um desastre maior: imaginem caçar o Ariovaldo pelos corredores do Iguatemi!

   Netinho tentou cercá-lo, mas o galo dava-lhe bicadas e escapulia. A veterinária veio em socorro do pai, carregando um lençol. Com ele, cercaram Ariovaldo e conseguiram sujeitá-lo.

   - Eu disse que iria até o sítio – reclamou a moça, olhando para a bagunça no ambiente.

   - Não foi... A gente veio – retrucou Lavínia. – Me dá uma vassoura, balde e esfregão, que eu vou limpando aqui enquanto tu olha a pata dele.

   - Capaz! Deixa que depois eu limpo.

   - Teus clientes não podem ver a veterinária varrendo, isso aqui é um lugar muito chique – cochichou Lavínia.

   Era muito chique, foi o que pensou a outra. Agora havia mau cheiro, penas e fezes molengas por todo o lado. Mas achou uma boa ideia deixar a mãe ocupada com a limpeza e atender o galo, ainda que pudesse parecer estranho à clientela que a clínica tivesse uma faxineira de saltos altos e vestido longo, cheia de colares, pulseiras e transparências.

   Desculpou-se com a dona do buldogue, mas precisava atender Ariovaldo antes do coisa fofa dela. A cliente foi compreensiva, também queria livrar-se logo daquela situação.

   O diagnóstico foi um tumor na pata. Afastada a opção pelo caldo, foi necessária uma pequena cirurgia.

   Quando saíram, Lavínia recomendou à filha:

   - Tem que avisar a segurança que qualquer tipo de bicho pode subir. Se não, essa tua clínica não vai vingar.

   Netinho fuzilou-a com olhos impacientes.

   - Até vaca? – troçou.

   - Tem que avisar, se não vai perder clientes, ora bolas.

   Netinho riu. Lavínia era a única pessoa nesse mundo que ele via usar “ora bolas”.

   - Tá rindo de quê? Foi um sufoco pra gente passar - insistiu ela.

   - Eu aviso, mãe, eu aviso.

   Ariovaldo ficou em recuperação por três dias na Clínica Bem Estar Animal. Naquele curto período, os entregadores de mercadorias e os operários da manutenção, a turma da faxina, os vigias, lojistas e atendentes - e quem mais tenha passado pelo shopping bem cedinho -, todos se alegraram com a cantoria estridente e interiorana do Ariovaldo, ribombando pelos corredores do Iguatemi.

   Aos que pedem notícias do galo, Lavínia manda uma singela mensagem de celular: “Passeou no shopping, fez cirurgia e passa bem. Não foi comido e está feliz, traçando as galinhas do sítio. Elas agradecem.”


                                                                         - Miguel da Costa Franco -

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